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Bagagem para férias

Vamos para férias levando na bagagem um optimismo do primeiro ministro e um pessimismo provocado pelo desemprego crescente, por uma economia que recorre à venda de património para poder sobreviver acima dos famigerados 3%, por uma assustadora desmobilização dos investimentos estrangeiros, etc. etc.

N/D
28 Jul 2003

A este calvário quis Durão Barroso enfeitar o espectro com um discurso de muita fé na recuperação, com uma exibição de índices económicos tão débeis como insustentáveis, na intenção de ir ao arrepio do que já fizera na época da tanga. Dotar o espírito português de mais optimismo é bom, ainda que na conjuntura soe não só a falso como a tardio. Mas nós somos um povo que esquece as grandes dores com pequenas alegrias. Basta que o nosso grupo de futebol ganhe para estarmos logo em paz connosco e com os outros.
Abençoado o povo que se contenta com as migalhas porque é o povo que nunca passará grandes fomes! Daqui a fama de sermos um povo de brandos costumes. Tão brandos que aguentamos uma ditadura durante quarenta anos! E durante estas férias, sejam elas passadas nos sítios mais modestos, ou entre os lugares mais caros e exóticos do Mundo, as coisas da política económica ficam esquecidas; pensamos, são feridas crónicas que só a fé as poderá sarar.

E para dar testemunho e veracidade a este estado de espírito lá virá a “rentrée” para meados de Setembro e dar-nos-ão novas músicas, feitas de acordes velhos mas nos quais, muitos de nós, nos deixaremos embalar. Daremos revivalismo às comédias das velhas farsas. Em férias todos queremos meter a cabeça no mar e enterrarmos as preocupações nas areias da praia. E quem somos nós para vir estragar com coisas sérias este engano de “alma leda e cega”, “que a fortuna não deixa durar muito”? Ninguém, como diria o Romeiro, de Frei Luís de Sousa. Parece-nos que durante as férias os portugueses hibernam; é mais letargia do que sono; aquela é dormência que embrutece e este, quando acordado, é parente da utopia. Pode virar realidade. É bem mais perigosa.

Fica-nos esta impressão: temos um governo que luta no naufrágio para construir a jangada para todos e, simultaneamente temos outros que já têm o seu salva-vidas. Alguns procuram nos destroços da tragédia, as riquezas que ainda possam sobejar para delas fazer mais património. Nesta estão os que não colaboram nos genéricos, os que vivem há anos sem pagar impostos, os que têm medo da quebra do sigilo bancário, os que temem o pagamento especial por conta, os que não operam, os que não pedem recibo, os que abusam das urgências, etc. etc. Estes são geralmente os lordes à espera de serem nababos. E vão consegui-lo porque nós somos bons a fazer revoluções e ainda melhor a deixá-las pela metade. Fazemos como os autarcas, rotundas, onde o trânsito abranda, amortece, mas nada resolvem. Faça de suas férias um mar de gozos que não um mar de esquecimentos. Não fuja de si.




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