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Suas Megacompetências

4 – Os níveis da indisciplina na sala de aula e seus factores.

b) Segundo nível: “os conflitos entre pares”

N/D
25 Jul 2003

Num patamar mais elevado, surgem, entre as “interacções horizontais”, as de natureza conflituosa (agressões, insultos, desvio e danificação da propriedade) que não só põem em causa as regras e condições de trabalho na aula, mas também valores de solidariedade, amizade, cooperação, respeito pela “diferença” e pela integridade física e psicológica dos outros.

Entre os factores, refira-se a falta de coesão e de alguma homogeneidade (ao nível de interesses e de idades) no grupo-turma e a consequente divisão em sub-grupos rivais (para quem a agressividade pode ser uma fonte de prestígio), a sobrelotação da escola e a inexistência de condições de convívio acolhedoras e atractivas, a fraca responsabilização do staff por questões desta ordem e, por consequência, a inexistência de um ethos escolar que se preocupe pelo “bem-estar” dos alunos e pela promoção dos valores acima referidos.

Tendo em conta apenas o que se passa dentro da aula (sem falar no recreio, espaço onde estes conflitos têm expressão mais frequente), as consequências são várias ao nível da turma, em geral (o rendimento é menor e aumentam os comportamentos dos outros dois níveis), e da vítima, em particular (fica deprimida, refugia-se no silêncio e na não-participação, torna-se agressora, integra-se em grupos rivais, altera o comportamento de modo a agradar aos agressores, ainda que isso signifique renunciar a valores pró-escolares, etc).

c) Terceiro nível: “os conflitos da relação professor-aluno”

Deste estádio fazem parte os comportamentos que, para além de porem em causa as condições de trabalho e as regras que as definem, manifestam desrespeito pelo professor e põem em causa o seu poder, autoridade e dignidade (agressões, insultos, grosserias e obscenidades, réplicas à acção disciplinadora, desobediência e danos na propriedade).

A investigação tem verificado que os comportamentos a este nível são menos frequentes que os dos outros níveis; verificam-se, de preferência, com alunos mais velhos (13-15 anos), na sua maioria, com um historial mais ou menos longo de repetência e, em muitos casos, ainda com problemas de ordem pessoal e familiar que escapam à responsabilidade da escola e dos professores; por outro lado, estes problemas são mais frequentes numas escolas do que noutras e acontecem mais com uns professores (permissivos ou autoritários) do que com outros (assertivos, mas compreensivos e interessados pelos alunos).

Na perspectiva dos protagonistas, trata-se, também, dos problemas de indisciplina que apresentam maior gravidade.

Estas constatações levam a supor o peso relativamente grande de factores de ordem individual, familiar e social. Mas estes factores, dado que se reflectem no quotidiano da vida escolar, encandeiam-se facilmente com os de ordem pedagógica. É que, sobre estes alunos pode recair maior vigilância, o que os leva a sentirem-se perseguidos; eles podem sentir-se vítimas de injustiça e incompreensão, sobretudo se um professor, sob a influência de expectativas negativas, interactua menos vezes com eles, usa de maior severidade e rigor na avaliação e na actuação disciplinar, utiliza ironias ofensivas e se imiscui em esferas que o aluno considera serem da sua privacidade.

Os comportamentos destes alunos (que às vezes arrastam outros, sem as mesmas características) podem interpretar-se, então, como forma de contestar valores, regras, exigências e práticas que pouco sentido têm para os seus projectos de vida; podem interpretar-se também como formas de reequilibrar o prestígio perante os colegas e de chamar a atenção sobre si e, finalmente, como formas de retribuição e de retaliação pelas injustiças reais ou imaginárias de que se julgam vítimas – não só as que resultam da interacção com os professores, mas também as que advêm de um “sistema” que lhes faz experimentar o insucesso.

Ainda em relação aos factores, para além dos referidos como adequados e adstritos a cada nível, podemos, em síntese, citar, perante um incidente de indisciplina (e tendo em mente os três níveis), a existência de factores sociogénicos (influências sociais, culturais e familiares), psicogénicos (patologias várias, atrasos no desenvolvimento moral, autoconceito negativo e baixa auto-estima, frustração e desinteresse causado pelo insucesso escolar, projectos de vida em que a escolarização assume pouco valor), e escolares (todo um potencial patogénico relacionado com os currículos, com os métodos de ensino, com a relação pedagógica, com a organização de turmas, com a gestão de espaços e de tempos, etc.).

Em síntese, falar de “níveis” de indisciplina (como quem afirma que não há indisciplina mas indisciplinas) obriga a concluir que, por um lado, ela é “endémica” à vida na aula (o que é fácil de compreender se tivermos em conta o carácter obrigatório da escolarização e o rol de constrangimentos mentais e físicos exercidos sobre os alunos, horas, dias, meses e anos a fio – originando a rotina). Por outro lado, falar dos “níveis” de indisciplina permite perspectivar, mais equilibradamente, o peso relativo dos múltiplos factores em causa e circunscrever, de modo mais claro, o problema.

Perante os factos, não é uma batalha nem sucessivos ultimatos o que se espera da parte do professor, mas uma reflexão, tanto quanto possível, colectiva, que defina e motive as mudanças a estabelecer nos domínios das estratégias interactivas docentes, no domínio da cultura e ethos escolar e no domínio da articulação da escola com a cultura e com o contexto familiar dos alunos – domínios de que trataremos nos próximos textos.

(continua nos próximos números)




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