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A Festa dos Povos

Normalmente vejo o programa “Ecclesia” na RTP2. Já tive ocasião de escrever sobre ele numa outra ocasião. Neste momento cabe-me destacar o programa que há dias segui sob o título “Festa dos Povos”. Nascida, esta Festa, no espaço geográfico do seminário da Torre d’Aguilha (ali estudei a minha teologia até 1968), tocou-me mais ainda, pois fora organizada por antigos colegas meus que, agora, se dedicam ao acolhimento dos imigrantes. Desta vez a festa (também, agora, assumida pelo poder político) foi realizada, com maior dimensão, em Cascais. Gostei de ver aquelas expressões diferentes, aquela arte identificadora, aquele intercâmbio cultural e aquele diálogo inter-religioso, em busca de comunhão e de unidade entre os povos.

N/D
25 Jul 2003

Andei 20 anos no coração da organização da festa da “Semana dos Estrangeiros” que, anualmente, se concretizava na cidade de Maniz, Alemanha. Era isto mesmo que procurava nos anos 70, 80, provocando realizações que motivassem todos os grupos a mostrarem as suas riquezas, as suas diferenças, as suas maneiras de ser e de viver. Revi-me bem nesta “Festa dos Povos”. Aliás, há tempos escrevera um outro artigo sob o título: “Vejamo-nos ao espelho”. E gostei de todos aqueles que falaram no programa e retive uma frase do último inter-locutor: não façamos cá dentro aos imigrantes aquilo que não gostaríamos que tivessem feito lá fora aos nossos emigrantes.
Escrevera eu também aqui há muitos anos no jornal que então dirigia, “Diálogo do Emigrante”, que era uma injustiça que os emigrantes portugueses fossem considerados cidadãos de segunda. Cidadãos de segunda lá, nos países de Acolhimento e cidadãos de segunda no nosso próprio país. Vivemos muitos anos com esta angústia interior e a mesma pressão exterior.

Nesta perspectiva lutámos muito para que as barreiras se desfizessem e a cidadania integral dos emigrantes fosse reconhecida e aplicada. Recordo-me que em 75 um grupo na minha comunidade fez um comunicado político reclamando para os emigrantes o seu direito ao voto. A esquerda (PCP) chamou-nos reaccionários e fascistas. De facto, agora, parece-nos caricato e estranho, mas naquela altura aguentámos aqueles nomes feios e indecorosos. Chamei eu, nos anos 70, a fase social aquele momento em que foi necessário lutar muito para que houvesse humanidade no acolhimento dos trabalhadores estrangeiros, de modo que a dignidade humana fosse respeitada, em todas suas dimensões.

De seguida veio a fase cultural em que foi preciso reclamar para as crianças e jovens, o bem da cultura portuguesa, a identidade do nosso povo, em diálogo igual e adulto com todas as outras culturas (chamámo-lhe integração); nos anos noventa tínhamos entrado na fase política, e a incidência caía sobre os direitos políticos. Neste sector havia os direitos laborais, a socialização, a cidadania, o direito à intervenção política.

Mais que uma vez vim para os jornais a reclamar que Portugal deveria considerar o fenómeno da emigração uma questão verdadeiramente nacional. Esta exigência nunca teve grande eco no mundo político. Andámos todos esses anos a deitar remendos e muitas vezes mal deitados.

A luta actual joga-se em duas frentes: já não só as comunidades portuguesas no estrangeiro, mas são também as comunidades estrangeiras entre nós. Muitos dos problemas que vivemos lá fora após os anos sessenta, vêmo-los, agora, à nossa porta, na nossa terra, nas nossas obras e nas nossas fábricas.

Entretanto, já muitas coisas neste sector, tiveram que ser legisladas e regulamentadas. Na verdade, as migrações não podem ser realizadas à balda, sem qualquer critério e sem qualquer estudo económico, social e político. É bom que isso tudo se faça, mas não esqueçamos que também nós somos um povo de emigrantes. Ao acolher os outros sejamos, pelo menos, mais humanos do que aqueles que nos acolheram a nós.




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