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Excesso de silêncio

Ou andamos com a corda na garganta (primeiro viver, depois filosofar) ou já não sabemos, nem queremos saber, por onde anda a nossa tão querida liberdade. Vejamos: julgávamo-nos escravos de primeiro grau quando tínhamos de falar a média voz no café, para que um sorriso vizinho, cheio de ouvidos, não nos fosse denunciar como inimigo do regime, defensor da independência das colónias ou da queda do Estado Novo. Ou nos sentíamos ameaçados pelo supremo soviete se, num artigo, num discurso, numa celebração, defendíamos a abolição da censura como uma sequência harmónica da existência da liberdade, ou ainda se defendíamos o arrombar dos portões para libertação dos presos políticos.

N/D
24 Jul 2003

Passados estes anos, esquecida essa militância mais humanista que política, toda a gente se pergunta se, quando telefona para um amigo, da rede fixa ou móvel, não estará a enviar um discurso para a quinta subcave de um qualquer prédio onde senhores, zelosos da segurança e da justiça, gravam as nossas conversas, ainda que meteorológicas, e a levam aos cientistas judiciários para decifragem um qualquer golpe ou desmando.
Mesmo o que era segredo de justiça, que em nome do direito e da tranquilidade apenas se quebrava em lugar e tempo apropriados, pode agora vender-se a um escriba de notícias que garante manchetes a jornais em vias de falência. Como se inventam facilmente circunstâncias excepcionais para violar todo o género de respeito pelo bom-nome das pessoas. Ou ainda os cofres do banco, há pouco tão seguros como o tesouro nacional, podem arbitrariamente ser visitados para vasculhar contas, impostos por pagar, ou simples engenharias económicas de qualquer cidadão com salpicos de suspeita. Nota-se um excesso de silêncio, complacente e reverencial, perante descaradas afrontas à liberdade e privacidade do cidadão. Sabe-se que a aldeia tem as entradas devassadas e precisa reforçar a segurança. Mas não se percebe como tantos discursos de liberdade, dignidade – elenco sinfónico de direitos inalienáveis – se conforma com um planeta arbitrariamente vigiado em todos os recantos.

Estaremos mesmo de tal forma com a corda na garganta que o “resto” parece secundário? As ditaduras surgiram quando a liberdade deixou de ser prioritária.




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