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O ano em que passei por Banja Luka

1 – Uma visita-surpresa de João Paulo II. Numa iniciativa muito meritória, visitou Sua Santidade no passado mês de Junho o norte do território da Bósnia, região esta que interesses alheios aos da Croácia e da Sérvia arvoraram em 1992 no nóvel Estado da Bósnia e Herzegovina.

N/D
23 Jul 2003

Um Papa polaco, logo eslavo, mas cuja mundividência e posicionamento político não coincidirão por inteiro, longe disso, com os dos nacionalistas sérvios (eslavos também, mas ortodoxos e tradicionalmente pro-russos). Nem com os dos numerosos socialistas locais. João Paulo II é muito estimado pelos croatas, isso sim. E com toda a certeza, a sua atitude de respeito pelo Islamismo e a favor da soberania do estado iraquiano aquando da recente conquista americana, granjeou-lhe também a simpatia de boa parte dos 50% de muçulmanos da Bósnia. A sua visita foi com louváveis intuitos de promover a Paz. E também, de estender a mão ao hoje tão ostracizado povo sérvio, cujos representantes dos seus verdadeiros interesses (ver o caso de Milóshevitch) são taxados de párias europeus pela comunicação social dita “politicamente correcta”.
O Papa esteve pois em Banja Luka, a capital da “Republika Srpska”, uma entidade que faz parte da Bósnia e que sucedeu à antiga Krajina. Este nome, Krajina, significa “fronteira militar”, aquela que foi estabelecida pelos antigos imperadores da Áustria na sua interminável luta de defesa dos povos bal-cânicos contra os turcos; e que era povoada por soldados-agricultores principalmente sérvios e funcionando em regime de comunas semi-autónomas.

Banja Luka? Já lá estive. Nos anos 80 eu também passei por Banja Luka e queria contar aqui essa minha aventura. Uma entre tantas outras que ocorreram nas minhas 5 passagens pela antiga Iugoslávia, antes desta federação se esboroar em meia-dúzia de pequenos países.

2 – A minha 4.ª visita à Iugoslávia. Naquele ano eu já era estudante universitário. E fui por estrada com os meus pais, o meu irmão e uma tia-avó ao sul de França e Itália. Eles por lá ficaram, a ver os monumentos e a estanciar nas praias. Mas a mim, como combinado, foi-me permitido pegar no carro e guiá-lo por 2 semanas na Iugoslávia, realizando assim um velho sonho de liberdade, numa das minhas regiões europeias favoritas, que visitava agora pela 4.ª vez.

A 1.ª noite, dormi-a em Mântua, onde um italiano solícito atravessou toda a cidade de lambreta para me indicar uma pensão, razoável mas infestada de mosquitos. A 2.ª noite foi já na Iugoslávia (Croácia), dormindo eu num hotel de Rijeka (Fiume), branco e grandioso, mas em cujo guarda-fatos caminhava uma barata, que aí se refugiou do calor tórrido daquele princípio de Agosto. Porém, nessa tarde, a minha entrada naquele país comunista, pela fronteira da Eslovénia, fôra algo problemática. É que eu levava um mapa topográfico da região de Zagreb (sempre fui colec-cionador de mapas e este havia-o adquirido em Viena anos antes, pois os locais não autorizavam a venda deste “perigoso material”). O certo é que o jovem oficial de polícia aduaneira suspeitou, vistoriou o meu Datsun 1200 azul-escuro de alto a baixo e deu-me ainda cabo do forro duma mala; facto este de que me pediu desculpa, acabando por me oferecer um copo de água em reconhecimento pela minha atitude paciente e respeitosa.

Segui viagem pela calcária costa da Croácia abaixo e fui-me hospedar em Zadar, na casa em auto-construção duma mulher alta que tinha um filho de bigode negro que era prof. do liceu local, mas que ainda estava a estudar Matemática na Univ. de Zagrebe. Com ele e a sua namorada fui duas vezes a uma praia que lembrava a ria de Aveiro, cheia de terra e caniços, mas que era privada. Era boa pessoa, mas não se dispensava de ter uma metralhadora e um capacete debaixo da cama, porque parece, pertencia a uma força territorial qualquer. A mãe dele frisava que, antes de se considerar croata, era “dalmatinska” (dálmata, como os cãezinhos…). Já com o marido, homem mais bonacheirão e menos aguerrido (e que criticava os desmandos da juventude europeia) aprendi que os croatas eram gente “postovani” (pacata, respeitadora).

3 – U Banju Luku!… Decidi-me então a rumar ao montanhoso interior, pela estrada de Shibenik e Drvar. Sentia curiosidade de passar, ainda não longe da costa, por Bosansko Grahovo, aldeia natal do miserável regicida do arquiduque Fernando e esposa, herdeiros do trono da Áustria. Este assassino, ironicamente e apesar de ter causado a mortífera 1.ª Guerra Mundial, nunca foi executado e morreria tuberculoso num hospital austríaco, em 1918.

As velas do carro estavam-me a falhar, mas lá continuava eu a subir e a descer as encostas das cordilheiras, quase paralelas, que se repetem no interior da boscosa Bósnia. Quando só se vêem montanhas e montanhas e a fome aperta, a visão de uma albergaria com mesas ao ar livre cheias de gente parece a melhor prova da real existência do Senhor. Pois esse restaurante lá apareceu, no alto duma cordilheira (o Vijenac) e com vistas esplêndidas, em várias direcções. Sentei-me, encomendei cabrito com pão (“jagnetinja”), uma cerveja e pus-me à espera. Só que a espera nunca mais terminava… Acabei por estar ali 2 horas (e depois, mais uma, a comer e a conversar).

Primeiro, falei com 2 jovens, um dos quais filho dum funcionário da TV estatal, em Belgrado, que vinham numa moto caríssima. Lá comeram e foram. Depois veio um inesquecível velhote, magro, baixo, cabelo quase branco, olhos azuis, cabeça quadrada, fato-macaco e boné de operário. Lá meteu conversa comigo e ficou admirado de eu vir de tão longe (“de Espanha”…) e de falar alguma coisa da língua dele, facto esse que se devia ao meu grande interesse turístico pelo país. Este homem lá me foi contando que tinha sido “partizan”; que tinha participado na ocupação de Belgrado (episódio que infelizmente nada teve de romântico, sabe-se hoje); que tinha aí tido 16 mulheres (“shestdéset jene” repetia); que Tito era um bom homem (“dóbar tchóvek”); e enquanto repetia estes factos e argumentos, engolia canecas e canecas de cerveja, de forma que eu já não sabia se ele tanto repetia as suas frases para ter a certeza de que eu as percebia; se por já ter alguma idade; se por andar com teor alcoólico bem acima da média; se por viver na Krajina, zona de fronteira com esses enfáticos turcos, esses incorrigíveis orientais, teimosos, primitivos, cruéis, repetitivos e auto-convencidos; ou se por todas estas razões juntas. Por fim, lá veio o abundante cabrito; ainda lhe ofereci algum e o camarada pediu-me boleia até Drvar, a vila que ficava em baixo, no vale. Lá o levei. E não é que o homem (político influente que era) me convidou para o bar dum caro hotel onde continuaria certamente a repetir as sentenças e as “imperiais”, se eu deixasse… Eu dizia-lhe que se fazia tarde e que tinha de seguir para o norte, para Banja Luka. Ele escandalizava-se e repetia agora “U Banju Luku!”… Convidava-me repetidamente a dormir na aldeia dele, que ficava num vale e onde, se eu quisesse, logo me arranjava esposa, uma vez que eu tinha dito que achava bonitas as bosníacas. O velhote era realmente do tempo em que se andava apenas a cavalo e não concebia que eu conseguisse cobrir ainda naquele dia os 165 kms de curvas que faltavam para B. Luka.

De forma que lá tive de me escapar, com o assentimento simpático dum dos empregados do hotel. O carro lá foi, aos soluços, e cheguei à cidade que ora foi visitada pelo Papa, quando era já noite feita. O hotel onde ia dormir (que ainda por cima ficava no cimo dum monte boscoso) estava encerrado para obras. E lá tive de improvisar, continuando a jornada, agora já na planície de Posavina (vale do Sava) em direcção a Bosanska Gradiska, onde pernoitei num abençoado motel (talvez na aldeia de Laktashi). E assim atravessei eu a Bósnia, por Drvar, Mrkonitch Grad e Banja Luka (ou “prado do governador”).

Depois foi Zagreb, onde cheguei com trovoada e o céu negro, numa 6.ª feira, 13 de Agosto; e o regresso à costa, onde pernoitaria em Split, na casa duma bela matrona de olhos azuis com um marido perigoso, ciumento e embebido em aguardente (a “slivovica”); a visita ao estádio do Hajduk e às termas de Diocleciano; o curto “flirt”, na praia, com a bela Nera, frustrado pelas minhas inibições (para mais, ela era filha de um severo coronel…). Leitura da “Corja”, de Camilo e as saudades da Pátria distante. Na data combinada lá estava eu em Mestre, perto de Veneza, para me reunir com os pais e encetar o regresso.

4 – O Adriático. Parece que foi anteontem. Mas quantas (boas e más) voltas não deu o Mundo depois deste meu acelarado périplo balcânico. Seja louvado Deus Nosso Senhor, que às vezes as saudades apertam… E por mais guerreiros que sejamos, ficam sempre os nossos olhos molhados de lágrimas que trazem o sal do querido mar Adriático… O mesmo que é um espelho azul quando visto dos terraços acima de Kotor.

O mesmo da vénus loura de Petrovac na Moru. E o mesmo daquela noite quente, estrelada e inesquecível em Omis, com a dança da roda de dezenas de pessoas, a melodia avassaladora, a dor de não me poder integrar. E a consciência e respeito por um mundo (o dos eslavos) que começa nas fronteiras da Grécia, Itália e Alemanha; e só acaba na Coreia e Japão.




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