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Para os bons

Há milhares e milhares de portugueses a fazerem o que tem de ser feito e a fazê-lo bem. A economia portuguesa está a fazer o trabalho de casa. Falta o Estado fazer o seu». Esta avaliação é de António Pinto Leite, um colaborador do “Expresso”, cujos textos leio sempre com agrado e um elevado grau de identificação.

N/D
20 Jul 2003

Então desta vez (“Expresso” de 19 de Julho), quando António Pinto Leite se refere aos portugueses que, pagando impostos, estão a perder a paciência com os que não pagam, sinto-me retratado.
Tão fielmente, que quase suspeito que tenho o meu telefone sob escuta, tantas são as conversas em que dou largas ao meu protesto!…

Ainda na semana passada, lá fui ao Multibanco deixar mais uns cobres que as Finanças me pediram, sendo de imediato rotulado de «palerma que não sabe o que há-de fazer ao dinheiro», por alguém que rematava assim o seu juízo: «Pagaste?… Fizeste bem; agora, um dia destes, já mo podem dar a mim!…»

Aborrece-me solenemente este gozo. Mas como não estou disposto a inventar, é provável que, no próximo ano, por esta altura, lá tenha de procurar de novo os “pagamentos ao Estado”, digitalizando cuidadosamente a identificação do documento e guardando, qual relíquia, o comprovativo!…

Acreditem, porém, que não é isto o que mais me afecta. Sim; o que verdadeiramente me tira de mim são aqueles que António Pinto Leite retrata como calões, absentistas e improdutivos. Por isso, gostosamente junto a minha voz aos que reclamam sistemas de avaliação.

Realmente, quando vejo pessoas empenhadas, pessoas física e psicologicamente disponíveis, receberem o mesmo que outras do mesmo “grupo” – mas que vivem encostadas à esquina do horário – fecha-se-me o rosto e vem-me uma enorme vontade de ser legislador.

Será que é tão difícil ver claramente a diferença entre um trabalhador (operário ou patrão) e alguém (operário ou patrão) que, só por comparecer no local de trabalho, já se julga com direito ao depósito atempado na conta?!… E esta diferença não deveria ser materialmente reconhecida?

Há reformas a que só alguns têm medo; e percebe-se porquê.

Neste contexto, socorro-me de uma frase que é um lugar-comum dos treinadores de futebol: para os bons há sempre lugar!…




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