Fotografia:
A dignidade do trabalho

Não era preciso que a nossa Constituição recordasse que todos têm direito ao trabalho, pois que isso faz parte dos Direitos Humanos. Além disso, diz o Livro do Génesis, que o homem foi feito ut operaretur, para trabalhar, e assim desse modo participar na obra da Criação de Deus. Não que Deus deixasse imperfeita a Criação, mas quis dar ao homem a dignidade de colaborar com Ele.

N/D
19 Jul 2003

Na situação actual, não há actividade que exija maior dedicação do tempo diário que o trabalho. A qualidade que cada um imprime à sua tarefa profissional incide notavelmente no seu modo de ser: para uns a vida de trabalho é fonte de satisfação; para outros é ocasião de permanente frustração.
“A qualidade do trabalho” é o título de um livro publicado por Tomás Melendo, catedrático de Metafísica da Universidade de Málaga. Nele o autor analisa com cuidado a essência do trabalho e esclarece os motivos que levam a situações tão díspares. Melendo elucida sob que condições fundamentais o trabalho pode converter-se em factor de aperfeiçoamento da pessoa humana. Não dá conselhos para que o trabalho seja gratificante para quem o realiza, mas vai mais longe e mais fundo: desentranha a natureza íntima do trabalho, de forma que possa alcançar a sua índole pessoal: constituir-se num acto da pessoa, como sugeria João Paulo II.

Só podem contribuir para melhorar e consequentemente satisfazer o ser humano aquelas tarefas nas quais cada pessoa consiga exprimir de forma adequada a categoria e os caracteres da sua própria condição pessoal. Assim cada um deve escolher o trabalho para o qual sinta vocação, quer dizer particulares aptidões. O que acarreta muitas frustrações no trabalho é muitas vezes uma pessoa fazer aquilo que lhe não diz nada – não se sente realizada.

É o que acontece com o ingresso dos estudantes nos diferentes cursos – não têm média para o curso de primeira escolha, aquele para o qual sentiam vocação, e vão para qualquer outro. Daí o enorme insucesso universitário, aliado à incompetência com que saem formados alguns dos que entraram contrariados para um determinado curso só para não perderem um ano.

O trabalho deve ter um papel primordial no desenvolvimento e na realização pessoal de cada um. Não se trata de um problema de dedicação ou de tempo. Se assim fosse a importância do trabalho era destronada conforme o tempo e a importância dada ao descanso.

Melendo no referido livro distingue o que é trabalho do que não é: não só na condição de trabalho pessoal, que é partilhado com muitas actividades humanas, incluindo o jogo e o descanso, mas na sua mesma índole de trabalho. O esclarecimento não é fácil, porque também não é fácil situar as fronteiras entre o que pode qualificar-se como actuação profissional e o que não pode ter essa designação.

Será trabalho o que realiza uma mulher nas tarefas domésticas? Será trabalho as ocupações de um doente, um paralítico ou um reformado? Para mim, são trabalho. No primeiro caso já há quem defenda, mesmo entre nós, que o trabalho doméstico realizado pela dona de casa deve ser remunerado. Se uma mulher é mãe e troca o trabalho fora de casa pelo cuidado dos filhos poupa dinheiro no Infantário e se se dedica a cuidar dos pais ou sogros idosos e enfermos, poupa dinheiro nos Lares da Terceira Idade. Quanto aos doentes, pois o seu «trabalho» é estar doente procurando ser bom doente, obediente às ordens dos médicos, enfermeiros ou quem dele cuida.

Para um paralítico o seu trabalho é aceitar as limitações da sua incapacidade e deixar-se ajudar pelos outros sem se sentir um fardo, por que não o é. Com um reformado os campos de actividade abrem-se em leque nos serviços de voluntariado e assim, trabalha às vezes mais do que quando estava no activo.

O trabalho tem uma dignidade inalienável e só não é trabalho, chamo-lhe antes «trabalhinho», aquele que é feito pelos amigos do alheio, os fraudulentos, os vigaristas, isto é, aquele que é moralmente reprovável.

É a nossa atitude que pode dar ao trabalho o máximo de dignidade se for feito com perfeição, empenhamento e generosidade, não pensando só no lucro imediato, sem com isto significar que o trabalho não deva ser remunerado de acordo com a competência de quem o executa.

Também não quero deixar de fazer notar que hoje em dia se fala muito de desemprego e isso é uma realidade infelizmente, mas muitas pessoas andam por aí procurando emprego, mas não trabalho – creio que me faço entender. Querem ter um emprego onde ganhem, mas que não lhes exija esforço, isto é, trabalho a doer.




Notícias relacionadas


Scroll Up