Fotografia:
“Os cromos da” minha infância

É um hábito em mim arreigado que já vem de há muito. Quando pego num jornal começo por “fazer o reconhecimento do terreno” que vou ler passando uma vista de olhos pelas gordas, da primeira à última página. De permeio, quando elas me despertam logo alguma atenção, faço uma breve pausa para ler as “semi-gordas” e por vezes as primeiras “magras”, continuando entretanto a caminhada… visual.

N/D
18 Jul 2003

Mas ao desfolhar o “D.M.” de hoje [dia 4//7/2003] esta regra feita rotina à força do hábito teve a sua excepção. Ao deparar com o título do artigo “Os Cromos da Bola” fiz instintivamente uma pausa para recuar cerca de cinquenta anos no tempo.
Abri então a caderneta das recordações e voltei a fazer, uma por uma, diversas colecções de jogadores. Tão miúdo era ainda que não tinha sequer direito a semanada, pelo que pedia dinheiro à mãe ou ao pai para ir “comprar jogadores”, aproveitando fazê-lo a caminho da escola ou nos intervalos do estudo em casa.

E vejo-me a entrar mais uma de tantas vezes na taberna anexa à mercearia, edifício que preservo na memória, mas que o progresso há muito sacrificou. Por um tostão (simplificando o “câmbio”, um tostão, ou seja “dez centavos”, é a vigésima parte de um cêntimo) compro um jogador; retirado o papel exterior que o embrulha e metido à boca o rebuçado que ele envolve, desdobro-o com uma certa ansiedade para ver qual ele é e se é para a colecção ou para a troca; naquele caso risco o respectivo número na lista, e sendo repetido, ele vai valer no mercado de transferências (dos coleccionadores) de acordo com a vulgaridade ou a raridade com que vai saindo da lata.

Esta palavra é mais que apropriada pois a caixa que funciona como “balneário” é mesmo em chapa, exteriormente forrada a papel. Dos que tenho para a troca, ainda retiro alguns para jogar ao abafa (virando-os com a deslocação do ar provocada pela mão enconchada) ou ao fito (neste caso ganha quem conseguir deitá-lo a baixo com o tacão velho que faz de malha…).

Uma falha de memória não me permite recordar o meio como se adquire a caderneta (já não tenho a certeza se é comprada); mas ainda sou perfeitamente capaz de colar nela os jogadores: da ameixieira tiro um bocado de goma que depois diluo em água, ou faço a mistura de farinha e água numa taça que surripio na cozinha.

Cromo a cromo, a colecção está quase completa. Agora só me falta o número da sorte; o meu azar é que em cada lata só há um exemplar dele, e lá para o fundo. Bem, vamos a ver se é desta que eu consigo rebentar a lata. Quando a quantidade de rebuçados já for acessível à minha bolsa e se o tal número ainda não tiver saído, compro esse resto. Depois é só fazer alinhar (colar) o jogador da sorte no seu lugar e voltar à loja para trocar a caderneta completa pela bola de couro que ando a namorar desde o início da colecção.

Agora uma nota de curiosidade. Não é de um académico como eu lembrar-me só de quatro ou cinco jogadores da Briosa (Capela, Curado e Melo, mais Azeredo e Bentes) e ter ainda na cachimbónia toda aquela equipa do Belenenses, não sei se da mesma caderneta. (Sério, Rocha e Serafim, Castela, Feliciano e Amorim, Dimas, Manuel Jorge, André, Matateu e Narciso).

Era este um dos entreténs da minha infância. A televisão havia de surgir uns anos mais tarde; e o primeiro aparelho que entrou lá em casa era em segunda mão. Qualquer semelhança da programação e do horário dos dois canais de então com os tempos que correm é pura coincidência. Que dirão as crianças de hoje dos jogos e brincadeiras daquele tempo?! Não sei se me ou os “consola” pensar nisso. E que dirão os netos das crianças de hoje do computador mais do DVD?!

Bom, vou avançar no tempo até ao dia de hoje para continuar a ver as gordas do jornal e me deter depois na leitura dos artigos ou notícias que tiverem mais interesse.




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