Fotografia:
O filho… da Pátria. Que eu não sou…

Em plena época de Verão, quando as agências de viagens e as televisões aguçam os apetites de água, cosmética e sol, seria muito bom reflectir sobre os espelhos paralelos e em lusco-fusco ou contra-luz aparecidos na comunicação e publicidade turística internacional para o nosso País.

N/D
18 Jul 2003

Nem os próprios nacionais se apercebem das campanhas jogadas nas nossas costas, mesmo por grandes promotores internacionais, que, certamente, apostam nos lugares mais paradisíacos, como eldorado de fantasia e interesses inconfessados… Mesmo que joguemos com os códigos da nossa “auto-flagelação”…

Há dias, chegou-me às mãos uma vídeo-cassete sobre Portugal, vendida em supermercados e ludotecas, como introdução a uma viagem turística ao nosso “jardim”. Esperava, certamente, numa tal promoção, em língua alemã, algumas informações complementares positivas sobre a paisagem, cultura e panorâmica social para mostrar a uns amigos. Não esperava um estudo profundo, pois se trata mais de divulgação turística superficial e mais de cosmética de veraneio. Mas o que fui encontrar, meu Deus!…

A introdução é feita, percorrendo as diversas Províncias de Portugal, como cartaz monumental, paisagístico, gastronómico, cultural e social. Há imagens verdadeiramente excepcionais, em que podemos apostar como Finisterra europeu.

Mas outras são tão negativas e de uma pobreza endémica e cultural, que qualquer turista, medianamente exigente, se desmotiva à partida, para visitar o País. As entrevistas feitas a portugueses, o perfil de pessoas idosas, desdentadas, andrajosas, crianças e velhos, como os guias, que falam sobre os monumentos ou museus, são de uma apresentação e pobreza cultural, que melhor nos define pelo negativo e em contraponto.

Mas as fotografias e espectáculo de algumas ruas das cidades de Lisboa, Porto e Braga, certamente de valor pelo seu jaez, traça original e autóctone, todavia com as roupas estendidas nos balcões a secar (interiores axadrezados, cuecas, camisas, calças dependuradas por todo lado, mesmo junto aos monumentos principais, igrejas, Sés, etc) são de uma pobreza e desleixo terrível, a contrastar com os arranha-céus de cimento do Algarve, como caixotes assimétricos ou formigueiros sem vegetação, água, nem verdes, o que é de fugir…

Mesmo os espigueiros do Soajo – uma maravilha pela sua originalidade – referência de comunitarismo vigente, tinham de ser filmados com uma série de roupas brancas, lencóis, cobertores, etc. e, ao fundo, uma pobre casa, talvez de emigrantes, com uma tinta berrante, completamente desintegrada da montanha.

As cores da serra da Estrela (que de ” estrela” não tem nada…) com uma construção desenquadrada e uma pequena estrada serpenteando nos córregos… como o lagarto de águas escondido numa vegetação queimada, árvores doentes, desalinhadas e calcinadas… para não falar de éguas, burros esquálidos e raquíticos nas planícies do Alto e Baixo Alentejo e algumas vacas desdenhosas, e ovelhas infezadas nos montes, aqui e além… represas de águas e esgotos na estrada… mais nos torna um país exótico de ecologistas, bandeirantes, ou tuaregues da Espanha meridional, ou mesmo de turcos beduínos de touradas e cavalariças…, irmão da Turquia e países árabes.

Exceptuando certas imagens do norte de Portugal, do Douro, Gerês, Viana do Castelo… (Braga, também junto à Sé com os adereços e atoalhados expostos nos balcões…, cocheiras, lixo e sardinheiras, etc.) e algumas do Porto, Coimbra e Lisboa, exceptuando o Bairro Alto e os telhados muito sujos, com gatos a rosnar, ratos a ruminar… bêbedos e noctívagos) e porcos alentejanos a pastar debaixo de cortiça…

Os mercados de peixe e lotas são de gritos, como o perfil humano de varinas e os pobres pescadores, a serem comidos pelos espanhóis… com barcos, rabelos ou batéis, de pobreza endémica – é um cenário de Terceiro Mundo, que não creio motivador para o Turismo. No entanto, é dos mais caros da Europa!…

Já pensaram nisto os Portugueses e todos os operadores turísticos, onde nos levou a nossa megalomania e narcisismo descabelado, visto de fora? Até nós fugimos para Espanha, onde, por menor preço, há melhor qualidade! Isto acontece antes do campeonato do Euro 2004.

Onde nos levaram os nossos voos de prestígio, prosápia e sucesso, apesar de construirmos estádios faraónicos? E vamos perder o campeonato, embora isto me assuste menos do que esta imagem péssima de promoção turística, ainda não neutralizada pelo ICEP no estrangeiro.

E a limpeza nos quartos de banho e restaurantes, para não falar da falta de água, não só no Algarve, e os cortes constantes de luz eléctrica e barulho, mesmo nos hoteis? E a condução indisciplinada- desenfreada, de alcoólicos, que leva os turistas a comparar-nos à antiga Jugoslávia, com medo de circularem nas nossas estradas?!

É assim que pretendemos promover e atrair com a imagem do País, acolher, apostando na qualidade, no bom gosto, e desenvolver um sector terciário, que tanto nos poderia alcandorar e ajudar economicamente?

Parece mesmo tudo a postos para destruir-nos, como próprios agentes, não falando em outras imagens que mais nos envergonham, mas que têm a ver com a educação do povo. Algo de positivo – que ainda aparece -, ou é de reminiscência eclesiástica, ou com foros clericais, porém maltratado e pouco apreciado pelas instâncias oficiais e pelo escol do nosso escol, que acha moderno ser agnóstico ou ateu, mas quer explorar o turismo religioso…, pensando diferente do culto Antero de Quental, que – como lembrou Augusto Seabra – a verdadeira revolução deve ser feita pelo “Cristianismo do mundo moderno” com os seus valores.

Mas como é possível num País que ainda confunde religião com superstição, mesmo entre os intelectuais, e esquece ou ignora as raízes?… Nem dá Padres, a ser já missionado por negros e pastores de seitas brasileiras, bonzos e gurus da New Age?… No entanto, está cheio de universidades, candidatos ao desemprego… escolas hoteleiras, polícias, educadores sociais e animadores culturais, mas ostenta a idiossincrasia, que todos conhecemos?!..

Falo como filho que gostaria de ter a mesma progenitora, mas educada de maneira diferente, triste nas rugas da face talmúdica, mais semelhante a uma prostituta, que não pode ser a minha mãe!…
De quem foi a culpa?… Talvez hoje, Jorge de Sena ainda assim pudesse falar, apesar da democracia, como jovem bandeira, numa república, ainda muito de bananas!….




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