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Meu caro Zé:

Aí está, invariavelmente como todos os anos, o país a banhos. Banhos de salsas ondas, claro! Não fôramos nós um povo de marinheiros e varinas, presos a esta atávica condição que tanto nos impele para o mar!

N/D
16 Jul 2003

Aquele mar que estrada longa, larga, livre e nossa foi e por onde, enfrentando cantos de sereias e ameaças de adamastores, chegámos aos quatro cantos do mundo!

E que agora, qual banheira ondulante, para pouco mais serve que para uma legião de pançudos (que é no que se está a transformar a raça, por força da comida e bebida de plástico) lavar as côdeas e tentar, por receita médica, ou arroto das vizinhas, dando, energicamente, aos braços e às pernas, abater as banhas!

E tu, meu velho, que és homem de lavouras e vens de sachar milhos, enxertar bacelos, plantar batatas e colher almôndegas pasmas com o sacrifício desta esforçada gente que, por estradas, caminhos e carreiras, procura, Domingo a Domingo, o mar, em cujos areais exibe os seus dotes futebolísticos (em cada coração português há sempre um Figo que espera por si e um treinador de bancada que dá a táctica do jogo), tosta os costados, porque é moda estar no bronze e aí deixa, em ossos de frango, embalagens de batata frita e paus de gelado, a marca da sua identidade!

Tu sabes, caro Zé, que depois que virámos costas ao mar e, de frente, nos pusemos para a Europa, dissemos não à enorme riqueza que ele encerra e, fechadas assim as portas do Atlântico que abertas nos estavam à África e à América, cavámos muita da nossa sepultura económica! E numa cegada de loucos afundámos barcos, cortámos videiras, arrancámos milheirais, secámos fontes!

Porque a Europa assim exige e quer. E, em troca, nos dá subsídios! Subsídios para sermos preguiçosos, e, à sombra da bananeira, comermos o que ela produz em excesso! Como se para mais nada prestássemos que para proxenetas económicos!

E mais. Há décadas, meu velho, que vivemos na cauda da Europa! E o mal é que isso não tem sido problema, porque faz parte da nossa cultura o não ter pressa, o deixar andar, o não te rales. Seja na Justiça, na Saúde, na Educação, no pagamento de impostos… o tempo sobra-nos sempre! Não há hipóteses! Somos um povo assim: quando os outros estão a chegar à meta, ainda nós andamos com a pasteleira aos tombos pelas quebradas!

Olha só! A nossa posição na Europa é muito simples: somos melhores do que os outros nas piores coisas (consumo de álcool, pobreza, droga, sida, exclusão social, sinistralidade rodoviária…) e piores nas melhores (educação, cultura, civismo, desenvolvimento…).

Todavia, valha-nos, ao menos, o raiozinho de sol a espreitar por este nacional, cinzento e opressivo céu e que foi, há dias, o desempenho dos nossos atletas para-olímpicos que, do I Campeonato Europeu de Atletismo para Deficientes na Holanda, trouxeram 21 medalhas!

E sem bombos, fogo de artifício, recepção oficial, ou discurso inflamado do nosso Presidente! Mas, pura e simplesmente, com a grandeza de quem passa ao lado da sabujice e intriga política. Mormente, da parafernália de parolismo, glória de mandar e vã cobiça que domina o desporto-rei e faz, por exemplo, deslocar a Sevilha cerca de 30 deputados que, agora, não querem assumir as faltas ao trabalho, porque entendem ter ido ao serviço do país! Boa!

Entretanto, venham daí as férias! Venha a refrescante e deliciosa banhoca no mar, de preferência, no Índico ou no Pacífico que o Atlântico já está fora de moda e assaz poluído de pançudos e bacocos! Crise? Qual crise! Isso não passa de um estado de espírito e de manobra de alguns políticos (que até fazem férias lá fora) para melhor levarem a água (os votos) ao seu moinho! E, depois, se estamos de tanga até dá jeito, porque já nem é preciso comprar fato de banho!

E em abono desta minha tese e a adoçar as banhocas dos portugueses, no Parlamento a fechar para férias até Outubro e na discussão, oca e trauliteira, do estado da Nação, o primeiro-ministro anuncia ao país que estamos no bom caminho, se inicia a retoma económica, há já luz ao fundo do túnel e 2004 será um ano positivo! A propósito, caro Zé, não é em 2004 que há eleições europeias?

Boas férias, meu velho, e vê lá se não vais na onda… da politiquice nacional!
Venham daí esses ossos e até Setembro!




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