Fotografia:
Emanações de um tugúrio

Estou no meu gabinete de trabalho. Lá ao fundo, o mar azul, em movimento de quem detesta a ociosidade ou inércia, parece dizer-me “adeus” ou convidando-me a ir ter consigo para desabafos e confidências conjuntos…

N/D
16 Jul 2003

Prefiro não ir. Muita coisa teríamos ambos a segredar… Não vou.
Talvez amanhã me abeire dele, confiando na sua compreensão de vizinho e amigo que é ao qual espero continuar correspondendo, enquanto não chegar o convite-intimativa para seguir viagem sem retorno…

Hoje, o tema mais focado nos “media” é a “criança”…

De olhos semi-fechados, deixo-me transportar a minha infância longínqua e recordo, evoco, revejo-me ainda menino, correndo atrás de borboletas, lindas, coloridas que tanta vez me deixaram o pó da desilusão, entre os dedos polegar e indicador…! Menino, de tenra idade, acreditando em “penedo-da-moira”, em fadas encantadas, em estrelas-de-papel capazes de roçar pelas nuvens, em sonhos de deslumbramento e em tanta coisa de encantar…! Onde estás, menino – eu de outrora, que tanto suspiro por ti…!

E penso nas “crianças”, centros de atenção neste dia mundial a elas consagrado. Vejo muitas, saltitando, correndo, brincando, dando-se as mãos, em abraços de ternura e inocência, que fazem delas outros tantos anjos na terra…!

Mas vejo outras, (tantas, tantas, meu Deus!), de olhar triste e magoado, não tanto pelo sofrimento de que ninguém será culpado, mas sobretudo pela lama em que as obrigaram a macular seus vestidos de candura, pelo ferrete de sordidez e ignomínia que lhe gravaram no rosto, ora, transformado em corola amarfanhada, ora apontando, com olhar de desespero, para canibais…!

Não quero pensar mais em semelhante quadro de tragédia e horror! Vou antes escutar um “cd”, quase celestial, e deliciar-me com Rossini, na sua ópera “Moisés no Egipto”. Ao som da orquestra acompanhada de riquíssimas vozes humanas, faço minhas as palavras da “prece”:

«Meu Deus: tu que decides acerca das flores, das lágrimas e das ondas, porquê o céu todo vazio, quando levantamos os olhos!? O mundo suicida-se; o mundo está velho demais, meu Deus! Meu Deus: piedade para a nossa terra, tu que és nosso Pai! Pára a tua cólera! Meu Deus: piedade para a vida! Meu Deus: no teu silêncio, perdoa a violência, perdoa a insolência, quando se julgam deuses! Fá-los voltar à infância! O teu filho intercede por eles! Meu Deus: piedade! Piedade! Amen».




Notícias relacionadas


Scroll Up