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Três histórias das minhas férias

Não sabemos agradecer o tempo de descanso. Parece que às vezes o desprezamos. Já o velho Cícero dizia que o preguiçoso tem sempre muito que fazer. Como este seu dito manifesta que o senso comum era seu sósia ou irmão gémeo!

N/D
15 Jul 2003

Deixamo-nos embalar pela mania de que, no nosso caso, o descanso nunca é possível, porque se largamos os afazeres que temos entre mãos, quase garantimos que o movimento de rotação da Terra parararia, como aconteceu com Josué.

E por falar num texto bíblico, é bom recordar que o inventor do abençoado descanso foi o próprio Deus que, após seis dias de labuta criacional, achou por bem repousar ao sétimo. E como nos criou à Sua imagem e semelhança, imitemo-Lo ao menos nisto, já que em matéria de virtudes deixamos muito a desejar…

O cronista encontra-se em férias. Por sinal, perto dum lugar onde coleccionou vinte e um anos da sua vida de adulto – o que significa rever muitas pessoas e muitas peripécias do passado, cada vez mais vasto, e também cada vez mais evocado pelos seus amigos, que se revêem nos netos já nascidos, no sucesso dos filhos em plena idade produtiva e profissional, e naqueles que embarcaram de aqui com o último adeus, ora previsto após doença prolongada, ora sem terem tempo para nos telefonar… ou, como agora vai de moda, mandar-nos um “e-mail”, simples e rápido…

Além dos grandes abraços – venha daí “o abração!”, ouço dizer constantemente, assim que me vêem -, logo começam a desfilar as histórias dos seus netos, as crianças mais inteligentes que Deus, alguma vez, criou à face da terra… E são duas destas façanhas incomparáveis, além dum caso risonho de gente adulta, que me proponho comunicar aos leitores, a partir destas terras pacíficas e calmas, onde o tempo de lazer e de recordação se assume placidamente, enquanto o mundo vai girando à nossa volta, sem que lhe prestemos muita atenção…

O avô irritou-se – tanto quanto é capaz um avô – com alguma maroteira dum neto. Empertiga-se, chama-o à pedra e fala-lhe com calor: ” Não tens vergonha do que fizeste? … Só sabes fazer asneiras! Por este andar, ainda te nasce, aí, na testa, um grande “T” … “T” de tolinho, entendes?” … O neto olha-o, entre surpreendido e embaraçado. E pergunta com cândida ingenuidade: “Ó avô, mostra-me o teu…” Não houve amigo que, ou por viva voz, ou por carta, ou por “e-mail”, não ficasse ciente da esperteza do garoto…

Esta não se passou directamente com o avô. Mas contou-lhe, com grande galhofa, o director da escola que o miúdo frequenta, num dos primeiros anos do ensino obrigatório. Sendo um centro pedagógico de inspiração cristã, nele existe uma capela que os alunos podem visitar quando querem. Intervalo do almoço, recreio mais longo. O director resolveu entrar nesse lugar recatado para fazer as suas orações.

Aí se encontravam em compenetrado silêncio, entre outros, alguns dos alunos mais novitos. Uns rezavam, outros liam algum livro piedoso adequado à sua idade. Tudo perfeito. De súbito, porém, verifica que no primeiro banco, sentado, olhando respeitosamente o Sacrário, um gaiato sorve um esplêndido gelado com um gosto inequívoco e peremptório.

A custo, contém o director uma gargalhada. Recompõe-se e, com um aceno de mão discreto, consegue chamar a atenção do deliciado rapaz, que sai do banco e se encaminha para o director, já fora da capela, sempre a chupar a guloseima. “Então, menino, tu não tens outros sítios da escola para comer gelados?” “Tenho, sim, senhor director?” “Então porque não comes noutro sítio? A capela é o melhor, é…?” O rapaz hesita. E o director insiste, já com cara mais séria: “Logo havia de ser a capela o melhor sítio para comeres o gelado… Então não há outros sítios da escola melhores para comeres o gelado?”

A criança explica: “Não há, não, senhor director… A capela é o melhor sítio”. “Como é que é o melhor sítio?” “Cá fora, todos me pedem um bocadinho do gelado… Na capela, o Jesus está calado e os outros não se atrevem…” Garanto que sorte igual teve esta saída em relação à anterior.

Mas para que não se pense que em férias os mais velhos só falam dos netos, deixo em seguida uma história de adultos – como é diferente, embora divertida! – que por aqui ouvi contar, deixando para outra ocasião mais saídas de crianças. Passa-se numa urgência nocturna, num hospital de província dum país que não é o nosso.

Um jovem facultativo estreia-se nestas andanças, sendo chefiado por um experiente colega com mais idade e muitas noites de vela. Achando-se momentaneamente sozinho, o novo médico, depois de várias horas sem ter nada que fazer, é autenticamente abalroado por um magote de gente simples e humilde, da qual se destaca uma lacrimejante mulher, que traz no regaço, envolto numa espécie de cobertor, o doente para a consulta. O assunto parece ser grave. O médico recomenda calma, recebe o grupo e pede para lhe mostrarem o paciente.

A mulher abre a manta protectora e eis que de lá surge uma pequena macaca, perante o olhar atónito do Dr. “Isto não é para aqui”, protesta o jovem médico. “Têm de ir ao veterinário!” “É como se fosse minha filha!”, grita a mulher inconsolável. Berros, protestos, sarilho grosso! Surpreendido, chega o chefe da urgência. “Para que é este berreiro todo?” Os ânimos estão por demais exaltados.

O experiente Dr. pensa um pouco, apercebe-se da situação, avalia os prós e os contras, e pergunta: “Que idade tem a bicha?” “Uns seis mesinhos”, soluça a “mãe adoptiva”. “Pouca sorte”, responde-lhe o chefe da urgência. “Com essa idade, não podemos tratar com segurança a macaquinha, nesta secção. Se quiser, amanhã de manhã, dirija-se à Pediatria”…




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