Fotografia:
Torredeita

Talvez apoiados no paradigma de que notícia acontece quando o homem morde o cão, e não o inverso, a imprensa, especialmente a televisiva, tem-se transformado numa torrente de desgraças.

N/D
15 Jul 2003

Desta forma, rapidamente a excepção se nos revela, e foi com muita satisfação que retive a notícia de que a dez quilómetros da cidade de Viseu, numa localidade chamada de Torredeita, existe uma Escola Profissional há mais de dez anos, onde os candidatos a frequentá-la passam várias noites num parque de campismo improvisado, de forma a alcançar um dos 138 lugares disponíveis para alunos.
Interrogado o director da escola acerca da anormalidade do acontecimento, este considera ser uma grande compensação pessoal e uma maior responsabilidade para manter o nível até aí evidenciado pela escola. Os alunos aspirantes consideram que a escola tem boa qualidade de ensino e um bom leque de escolha de cursos.

De facto, a escola profissional de Torredeita não é caso único nem pouco mais ou menos, na situação de ter uma procura de potenciais alunos superior à oferta. Como diz o senhor ministro da Educação, “os bons resultados atingidos por uma boa parte das escolas profissionais, quer pela procura crescente de que são alvo, quer pelos elevados índices de empregabilidade dos seus formandos, devem-se ao modelo organizacional que adoptaram e à capacidade de articulação com o mundo empresarial e do trabalho, bem como com as comunidades que pretendem servir”.

O que nos leva a concluir que estamos perante um modelo que funciona bem em termos gerais, com ganhos para todas as partes, os alunos, as empresas e a sociedade, que tem atravessado governos quer de direita, quer de esquerda, mas ao arrepio das conquistas de Abril, que só admitiam um sistema unificado, igual para todos, destruindo assim um dos nossos melhores capitais que eram as antigas escolas técnicas.

O ressurgimento do ensino profissional, com a criação em 1989 das escolas profissionais, instituições de direito privado, tem sido quase exclusivamente ministrado em escolas profissionais privadas, na sua maioria de pequena dimensão, criadas em resultado da conjugação de esforços locais, como autarquias, associações empresarias e empresas.

De um total de 224 escolas, somente 18 são de carácter público, tendo estas últimas quase exclusivamente cursos de formação na área agrícola. Do total de alunos que frequentam o ensino secundário, oito e meio por cento frequentam cursos profissionais, sabendo-se que esta percentagem aumentaria rapidamente, dada a elevada taxa de empregabilidade, se o governo assim o desejasse.

Acontece que, o aumento de alunos no sistema vocacional de ensino iria necessariamente diminuir o número de alunos no sistema geral, onde o Estado, no limite os contribuintes, suportam o peso de uma máquina demasiado custosa, ainda para cúmulo, proporcionando resultados demasiados fracos.

Ou seja, as deformações a montante implicam que não se possam obter outros resultados a jusante. Existem milhares de jovens que desejariam frequentar um curso vocacional mas não podem, porque temos de suportar, durante um grande número de anos, os erros cometidos por responsáveis políticos que se aninharam perante a forte pressão dos sindicatos.

No mesmo dia da reportagem sobre Torredeita, passou outra sobre a política do Ministério da Educação de encerrar as escolas com poucos alunos, concentrando-os numa única escola. Interrogado o pai de uma criança de Mondim de Basto, este afirmava-se de acordo por o seu filho, o único aluno na escola local, precisar de conviver com outras crianças.

Mas logo de seguida um conhecido sindicalista afirmava que se tratava de mais uma medida economicista do Ministério da Educação, e esgrimia referências a livros de pedagogia como suporte das suas afirmações.

O que passa de facto, todos sabemos, é estarmos a pagar a mais cara educação de todos os países da OCDE com os fracos resultados que se conhecem, factor em parte também responsável pelo déficit que suportamos, e ainda termos que ouvir constantemente o discurso dos dirigentes sindicais da visão economicista da educação, e dos direitos adquiridos.

Mas nunca os ouvimos falar das acumulações de professores nos dois sistemas de ensino auferindo mais de um vencimento.




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