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O que queremos da cidade

Há certamente muitas maneiras de (vi)ver uma cidade. Uma delas, que acredito ser partilhada por um bom número de pessoas, é sentir-se positivamente impressionado com o rasgar de novas avenidas, com o crescimento do volume e altura dos prédios, com as estradas asfaltadas e os túneis e viadutos que as atravessam.

N/D
14 Jul 2003

Outra, não raro contraposta à primeira, olha mais para a qualidade das construções, para a segurança das pessoas quando circulam, para as zonas verdes em que podem passear e descansar, para a salvaguarda da memória urbana e do património construído. Os primeiros entusiasmam-se e vibram com o “progresso”; os segundos olham para o que promove ou prejudica a “qualidade de vida”.
Não é inevitável nem salutar o antagonismo entre as duas perspectivas. Cada uma, de per si, é limitada e conduz em última análise uma cidade por caminhos ruinosos. Mas para que tal não aconteça, torna-se necessário que as diferentes sensibilidades e concepções aceitem conversar e debater.

O que se passou há dias em Braga foi um acontecimento daqueles que vale a pena recordar. Não é, infelizmente, prática costumeira ver algumas centenas de pessoas, numa noite enluarada de Julho, numa esplanada do centro urbano, a debater o presente e o futuro da cidade. O pretexto proposto pelo projecto BragaTempo foi o futuro da Fábrica Confiança. Mas o alcance do evento transcendeu em muito o que ali se disse: o local do encontro mais parecia uma ágora em que os cidadãos podiam tomar a palavra sobre os assuntos que directamente lhes dizem respeito.

A Câmara Municipal tem seguido, face às iniciativas do BragaTempo, aquele dito jocoso que um amigo meu gosta de citar: «deixá-los andá-los que eles cansarão-se». Como quem diz ou sugere: são poucos, são sempre os mesmos, não fazem mossa. Mas seria assisado que os edis reparassem que, neste caso, se trata de uma iniciativa de jovens, para quem a política é, em primeiro lugar, a vida da polis, e que manifestam uma genuína preocupação por problemas reais da colectividade. Pode compensar a curto prazo esta atitude de desprezo. A médio-longo prazo, pode ser que seja uma estratégia suicida.

A Universidade do Minho foi ao jogo, mesmo que em posição demarcada da táctica dos promotores. Mas deveria, a meu ver, ir mais longe: algumas das questões que jovens ligados ao BragaTempo colocaram publicamente à UM, neste jornal, merecem debate e sequência. A Universidade pode ter razões que a impeçam de dar a resposta desejável, mas só tem a ganhar em se explicar e examinar as questões. Para combater os riscos de um divórcio face à cidade.




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