Fotografia:
As “Ramblas” de Braga

Gostei sinceramente de ver o artesanato mostrar-se na sua dimensão, quer no largo do chafariz em frente às Arcadas, quer no largo do Barão de São Martinho. É uma expressão artística que peregrina desde a ingenuidade até ao perfeccionismo de execução e que nos transporta a tempos atrás em que a expressão dos sentimentos ou acontecimentos se retratavam nas pinturas rupestres e se estenderam depois até à divisão social do trabalho.

N/D
14 Jul 2003

Esta exposição artesanal à moda das “Ramblas” de Barcelona, ainda que de parcas dimensões e de indefinida identificação com aquelas, precisam de ser acarinhadas: não estorvam, não incomodam, não concorrem com o comércio envolvente que se manifesta na dimensão do movimento das lojas comerciais e preenchem, no nosso entender, um espaço cultural.
Não sabemos se têm êxito de vendas, ou, se pelo contrário, conseguem os magros proventos duma subsistência menor, mas a verdade é que, para os nossos olhos, o êxito do impacto absolve tão categoricamente os outros juízos que o limite entre o que é rentável e o que não é, ou que é justo e o que não é, não tem nada de fixo, antes parece poder ser deslocado quase arbitrariamente por nós próprios para o campo da tolerância e plena aceitação. Por isso esta moral tão imprecisa e tão inconsciente não poderá constituir uma disciplina. Daí resulta que toda esta esfera de vida artesanal deverá estar, em parte, subtraída à acção moderadora da norma de comerciante.

Significa esta análise que não se torna necessário, nem sequer exigível ou urgente, regulamentar esta actividade e muito menos impor-lhe regras rígidas de contribuição. Julgamos mesmo que a aceitação social é a única força legal que pode autorizar esta expressão de arte. Espreita, no entanto, aqui, um perigo: parece que em algumas das barracas o artesanato já virou indústria e os produtos ali vendidos podem muito bem vir dos teares das fábricas que não das mãos obreiras dos artesãos humildes.

É sempre o abuso que mata o uso e, por isso, se alerta desde já, para quem de direito, para investigar e vigiar se existem estas duas situações em Braga e, se existem, em que dimensão elas existem, de que natureza são estes desvios e ou aproveitamentos. Pelo pecador não deve pagar o justo, é doutrina que nunca perfilharemos pelo que ela tem de injustiça e esbulho de direitos. É este estado de anomia na definição do que é artesanato e do que não é artesanato que deve ser evitado. Que uma tal ausência de lei, a existir, seja um fenómeno a combater, antes que se enquiste e transforme num caso conflitual.

A nossa preferência vai para o artesanato de rua. Prendem-se os nossos olhos à arte dos adereços, naqueles arranjos filigranados em arame, ou, doutros jeitos, concebidos e feitos em materiais muito diversos, mas sempre dando a impressão de quem por ali passa que há uma cabeça que pensa, um coração que sente e uma mão que executa. É a arte na pujança da criatividade recendendo da evolução antropológica, quer nas similitudes, quer nas alteridades que a caracteriza.




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