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Espreitando El País

Numa das habituais espreitadelas, em férias, nas terras de nuestros hermanos, à imprensa diária, detive-me sobre um tema actual, sabiamente desenvolvido por Ignacio Sotelo, catedrático de sociologia, em “El País”, do passado 8 de Junho, leitura que, com muito gosto, vou partilhar com o leitor. Este elaborado texto tem por título “Agotamiento de la socialdemocracia”.

N/D
11 Jul 2003

Segundo o autor, a mundialização da economia e das mudanças sociais que se intensificaram na última década têm posto à prova a capacidade transformadora dos diversos partidos socialistas europeus. Os recentes congressos do SPD na Alemanha e do PS em França vêm-se confrontando com o dilema de replantar os seus postulados tradicionais a fim de conseguirem um projecto de futuro, num contexto marcado pelas pautas do neoliberalismo.
Ao longo do texto, procura o autor analisar a crise do modelo social-democrata europeu e como observam esse processo os reformistas nos Estados Unidos. Pode bem falar-se do final da social-democracia visto ter-se esta desembaraçado dos conteúdos específicos que a diferenciavam dos demais partidos, aos quais antes chamávamos burgueses, e que agora denominamos conservadores, populares, democratas-cristãos ou simplesmente de centro-direita, e haver desaparecido o modelo de partido de classe que inventou a social-democracia em finais do século XIX, reconvertida hoje num partido interclassista sem outra perspectiva que não seja a dos demais partidos com que compete – ganhar as eleições.

No princípio do século XX a linha divisória entre partidos socialistas e partidos burgueses era de traço grosso. No começo do século XXI esfumou-se por completo. Há que completar o diagnóstico, dizendo que se ouve já os primeiros balbucios de outra esquerda mui distinta cujos rasgos principais não cabe ainda discernir com clareza.

O último modelo social-democrata, agora esgotado, se havia configurado depois da II Guerra Mundial com a transição do Estado social para o estado de bem-estar. Os trabalhistas põem em marcha o programa de nacionalizações anunciado (o Banco de Inglaterra, a mineira de carvão, a electricidade, o transporte), com o objectivo de desenvolver o Estado social até convertê-lo num Estado de Bem-estar (Welfare State).

Denominação que alude ao salto qualitativo que implica ultrapassar os seguros de doença, acidente de trabalho, velhice, maternidade (Estado social). Um bom Serviço Nacional de Saúde (National Health Service Act) que garanta um serviço médico gratuito para todo o mundo.

Mas onde o modelo social-democrata atingiu a sua maior perfeição, tropeçando já com limites difíceis de ultrapassar, foi na Suécia. A originalidade da social-democracia sueca no poder consistiu na renúncia à nacionalização da grande indústria, apesar de tê-la previsto no seu programa. Em vez de nacionalizações, com os problemas resultantes da gestão estatal das empresas, o instrumento principal de uma política so-cial, encarregada de eliminar as diferenças, recaiu na política fiscal.

O fracasso do trabalhismo britânico resultou do abuso das nacionalizações, enquanto que o êxito da social-democracia sueca, em boa parte, se explica por ter deixado a economia em mãos privadas, preocupando-se o Estado com uma política de igualdade social, tão ampla como inovadora, que financia com os impostos. O modelo social-democrata na Suécia fraqueja, como no resto da Europa, no momento em que não consegue manter o pleno emprego. Daí não haver outro remédio que não seja a renúncia ao Estado de Bem-estar. O desemprego absorve a parte de leão do orçamento social.

Com tal falta de recursos não há já projecto social inovador que valha. Com um desemprego permanente, próximo de dois dígitos, a social–democracia europeia não tem outra meta que não seja lutar contra essa praga e evitar o desmantelamento do Estado social.

Mas sem um plano claro de como recuperar o pleno emprego, não há alternativa que se oponha às privatizações dos serviços so-ciais que propõe o liberalismo dominante. Foi o desemprego maciço dos anos 20 e 30 que levaram a social-democracia ao poder.

Mas foi o desemprego resultante da recessão, no começo dos anos 70, que acabou por sepultar o Estado de Bem-estar construído pela social-democracia entre os anos 50 e 70. O modelo deixou de funcionar logo que o Keynesianismo deixou de se mostrar operante na luta contra o desemprego, e houve que optar entre uma inflação que, provocando o aumento do gasto público, ameaçava disparar, ou aceitar o desemprego como inevitável. Com a queda do bloco soviético, o planeta converteu-se num só mundo.

Agora, a internacionalização do processo produtivo põe em questão os mesmos fundamentos da política social-democrata, aplicável unicamente no interior de um Estado, capaz de ordenar o mercado. A classe trabalhadora vive um processo de dissolução, fragmentada em sectores, cultura, formas de vida muito diferentes e sem a protecção das grandes organizações de classe, justamente num momento em que os titulares do capital não são confrontados com um inimigo que mereça sequer a sua atenção. Da social-democracia não resta hoje mais que o nome. A sua debilidade é tal que nada oferece que não ofereçam também os demais partidos.

Parece inevitável o declínio da social-democracia europeia. O enfraquecimento dos partidos sociais-democratas, considerando os resultados eleitorais na Dinamarca, na Itália, governada esta por uma coligação de centro-direita dirigida por esse expoente máximo do capitalismo nacional que dá por nome Berlusconi do qual não é de esperar grandes políticas sociais, na Áustria, e na França onde Jospin, que governava desde 1997 com os comunistas e os verdes, sofreu uma humilhante derrota, em 2002, nas eleições presidenciais, acabando no terceiro lugar com menos votos que Chirac e que o populista de direita Le Pen.

Mais uma achega nossa ao reflectido texto do “catedrático excelente de sociologia Ignacio Sotelo” que prevê um novo mundo onde o confronto do capital com o trabalho deixa antever a vitória daquele sobre a subalternidade do trabalhador com o regresso ao passado anterior às vitórias da social-democracia na área de solidariedade social.




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