Fotografia:
As faltas dos Deputados

A ida de três dezenas de Deputados a Sevilha, em Maio passado, a fim de assistirem à final da Taça UEFA, entre o Futebol Clube do Porto e o Celtic de Glasgow, é motivo para lhes ser justificada a falta aos trabalhos da Assembleia da República?

N/D
10 Jul 2003

Não conheço o Regimento da Assembleia da República, ignorando se poderá ou não projectar luz sobre esta matéria. Li com atenção o Título III da III Parte da Constituição da República Portuguesa e não encontrei lá qualquer esclarecimento.
À primeira vista fico com a impressão de que a falta, por aquele motivo, é injustificada, pelo que o tempo de ausência deverá ser descontado no respectivo vencimento.

Não nego àqueles ou a quaisquer outros Deputados o direito de poderem assistir a um jogo de futebol. Fazerem-no, todavia, durante as horas de trabalho e pretenderem que tal seja considerado falta justificada, peço muita desculpa se no que escrevo virem qualquer ofensa, que não quero cometer, mas considero isso um mau exemplo que os senhores Deputados dão ao País. Salvo melhor opinião, não me parece que com actos destes se dignifique o Parlamento.

Quando votei para a Assembleia da República fi-lo na esperança de ter no Parlamento quem se debruçasse sobre os reais problemas do País, acompanhando muito de perto o trabalho do Executivo e denunciando, sempre que fosse caso disso, comportamentos lesivos do bem comum.

Fi-lo na esperança de ter no Parlamento quem procurasse dotar o País de leis honestas, possíveis e justas exigidas pelo condicionalismo em que vivemos. Fi-lo na esperança de que no Parlamento houvesse quem, dedicadamente, contribuísse para que a Assembleia da República desempenhasse as missões que constitucionalmente lhe competem e a Constituição define nos artigos 161.º a 165.º.

Quando votei nas eleições para a Assembleia da República nunca imaginei que o fizesse para que algum ou alguns daqueles eleitos me representasse assistindo a um jogo de futebol. E no caso presente acresce a circunstância de a Assembleia da República não ter sido convidada para o evento em questão, pelo que não designou qualquer deputação para a representar («Expresso» de 5 do corrente).

Esta questão levanta uma outra de que em certos meios não gostam que se fale: a sobrevalorização do futebol. No que em minha opinião é uma correcta escala de valores, deveria ser posto uns furos bastante abaixo do lugar que ocupa.

Parece-me um erro gastar com o futebol o tempo e o dinheiro que se lhe dedicam. Parece-me um erro canalizar para o futebol dinheiros públicos que, em meu entender, deveriam ter melhor aplicação. Parece-me um erro gastar milhões com estádios de futebol quando há populações sem saneamento básico e sem água ao domicílio. Parece-me um erro ter-se feito do Euro 2004 a grande opção do País, quando há sectores fundamentais que continuam a lutar com falta de recursos.

Já agora, só mais uma opinião: a de que seria bom evitar a politização do futebol, pelo que aplaudo o esforço de quantos, lutando contra certas correntes, procuram separar as duas coisas.

A (des)propósito: Achei bem que se tivesse aberto ao público a auto-estrada Braga-Guimarães sem qualquer tipo de festa. Numa altura em que se fala de restrições e de austeridade, foi uma despesa supérflua que se evitou.




Notícias relacionadas


Scroll Up