Fotografia:
Senhor Primeiro Ministro:

1Era o mais afamado agente de cobrição das redondezas o bode do senhor Levedura. Sem negaças, ou delongas, feridos, ou fins-de-semana, cabra coberta por ele era prenhez garantida. Decididamente, um fero macho o bode do senhor Levedura.

N/D
9 Jul 2003

Assim, de terra em terra correndo, a sua fama de exímio femeeiro e obreiro incansável, depressa, chegou ao aquartelamento da zona, onde o major da intendência, deveras agastado com o bode já velho o que ao rebanho não dava a devida assistência, rápido acertou com o senhor Levedura a transferência da estrela. Porém, poucos dias passados, mostra- -se o bode biqueiro, perde a fama e o proveito. Procura o major o senhor Levedura.
– Homem, fui enganado. Afinal, o bode é um frouxo, dá pouco rendimento, vira as costas ao trabalho. Nega-se a fazer fogo!

– Então, que quer, senhor major, ele agora virou funcionário público!

2. Ora, senhor primeiro-ministro, a anedota ilustra bem uma das facetas da Administração Pública que temos – pouco trabalho e demasiada lentidão e desmotivação no seu desempenho. E serve de forte incentivo à sua reforma a que, em boa hora, o seu governo lança mão.

É facto assente que temos tido, ao longo dos anos, uma Administração Pública sem criatividade, inovação, competitividade e zelo no exercício das suas funções. A sua acomodação, rotina, corporativismo e forma de estar, apoiados por um ordenado que pode ser pouco, mas é garantido ao fim do mês, bem como as promoções e progressões automáticas na carreira, faz passar para o exterior a imagem de um funcionalismo inoperante, relapso, incompetente, calaceiro e mal-humorado.

Mas isto nem sempre é verdade, pois, a máquina do Estado pesada, mal oleada e, sobretudo, centralizada e burocrática impede a prontidão e eficiência dos serviços. E, muitas vezes, antes que se planeie, discuta, decida e execute é necessário subir a pirâmide hierárquica e nela se perder e
embrulhar.

Ninguém duvida, pois, da necessidade em reformar a Administração Pública. Mas, senhor primeiro-ministro, que não se perca tempo com muitas filosofias, planeamentos e comissões. E, sobretudo, se atente a que a maior reforma tem de ser a de mentalidades, criando um novo conceito de função pública, modernizada inovadora, que garanta um serviço de qualidade e, se possível, com menores custos humanos e materiais. E a pensar que, para além da reforma, há vida!

Pode pensar-se em desempenho por objectivos e respectiva avaliação e fiscalização que, sem um homem novo, a começar pelos membros do governo, deputados e gestores públicos, a Reforma não passará de uma operação de cosmética muito ao jeito de políticos e tecnocratas. Então, se entrarmos nos sectores da Educação, Saúde e Justiça as coisas mais se complicam não, apenas, pelos agentes envolvidos na operação reformista, mas no seu alcance e objectivos.

Saúdo a vontade e coragem políticas do seu governo em pegar nesta que é a mãe de todas as reformas e espero que não seja, simplesmente, um arroubo economicista, muito ao jeito e gosto da ministra das finanças com o único propósito de reduzir o défice, através da contenção salarial e do congelamento de carreiras.

Demais, o meu exemplo do governo de Guterres que, embora criando o ministério da Reforma Administrativa nada reformou, deixa-me de pé atrás e a temer que continuemos, orgulhosamente, sem reforma nenhuma.

Com os melhores cumprimentos e até de hoje a oito.




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