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Após um mês de silêncio forçado…

Quando um colunista habitual, que escreve semanalmente os seus artigos, esquece a pena na gaveta durante quase um mês por razões de ausência forçada, a primeira ideia que lhe ocorre para recomeçar as suas funções é verificar o que, durante esse hiato de inoperância redactiva, aconteceu pelo mundo.

N/D
8 Jul 2003

Mas este, apesar de ser actualmente, como costumam chamar-lhe, uma aldeia global, ainda se apresenta demasiado grande e até distante para se poder condensar, numa página A 4, tudo o que por ele vai sucedendo.
Reduzindo as dimensões da sua ambiciosa pretensão às fronteiras do país, apercebe-se o autor destas linhas que vivemos, antes de mais, em época de defeso futebolístico. Na vida do cidadão médio nacional, este facto tem a importância evidente de tornar os motivos de conversa mais serenos, embora saudosos das épocas das pugnas semanais, porque os seus clubes, com a sorte que lhes ditou a época passada, estão de férias e em vertiginosas gestões, – sabe-se lá bem com que economias! -, para reforçar os plantéis com novas aquisições.

Outros, porém, porque o dinheiro nunca foi elástico, vendem o que de melhor têm para o estrangeiro, beneficiando o país com ingressos invejáveis, se bem que retirando às equipas a competitividade que o capital mais volumoso dos outros países não lhes permite.

Apesar de tudo, continua a falar-se de futebol. O vazio dos campeonatos não é suficiente para que as pessoas deixem de pensar nele. Constitui um hábito nacional, agora glorificado com a escolha dum português para treinador do clube europeu que mais taças internacionais conquistou e onde joga, pelo menos por agora, um dos nossos melhores “craques” de sempre.

Curiosamente, à emigração da gente humilde para as terras rendosas do Velho Continente, que teve lugar entre os anos cinquenta e a actualidade, sucede nos nossos dias uma outra mais qualificada e muito melhor remunerada. Por este andar, e com os novos valores que surgem anualmente, teremos nas outras nações da Europa muitos futebolistas portugueses a mostrar o seu valor. E isto, no fundo, orgulha-nos, pois sentimos o gozo do patriotismo vibrar de contentamento quando eles triunfam.

Mas se olharmos a nossa velha casa lusitana, vamo-nos habituando com satisfação à cada vez maior quantidade de emigrantes do Leste que nos escolheu como lugar de trabalho, além dos nossos velhos amigos brasileiros e africanos das antigas terras por onde vivemos e mandámos durante vários séculos.

Perante esta novidade que tanto nos surpreende, não nos deixamos de questionar: se demandam a nossa terra em busca de melhor vida, o que seria a que eles tinham nos seus países de origem? Somos “queixumentos” por natureza e tudo nos parece mal portas adentro: vivemos mal, temos uma assistência social que brada aos céus, uma economia agonizante, um funcionalismo do Estado inoperante, um ensino público que toca as ruas da amargura, etc. E, valha a verdade, até nos parece que dizemos estas coisas com carradas e carradas de razão!

Ontem, porém, ao visitar uma velha amiga, soube que a sua cozinheira era uma engenheira química de Leste, que rumou até nós para poder ajudar os seus filhos a sobreviver na sua terra, que até à queda do muro de Berlim se apresentava aos olhos do mundo como o paraíso dos trabalhadores e da justiça social. Em que ficamos? Lembro uma velha cabo-verdiana, creio que alcoólica, mas inteligente, que dizia, pouco depois da independência do seu país, com ar de sobranceria: “O português é bom para trabalho que não suje a unha…”

E se contemplamos a nossa vida política, aí nada mudou: os partidos do governo defendem que a crise económica – irmã gémea da nossa existência desde a independência no século XII – é passageira e tudo será diferente, apesar das dificuldades, no ano que vem. A oposição, com palavras apocalípticas, quase nos anuncia o fim do mundo perante a situação a que esta maioria nos conduziu, devido à sua incompetência e à sua incapacidade…

O velho disco que toca com invariável repetição, à esquerda ou à direita, conforme os ganhadores das derradeiras legislativas… Entretanto, os deputados que foram a Sevilha ver o FCP jogar – sempre o futebol! -, vão ter faltas injustificadas contra a sua vontade. Do mal, o menos: “Ou há moralidade, ou…”. Enfim, a natureza humana não mudou! Eis a conclusão mais acertada, depois de um mês de silêncio forçado…




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