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Vamos ao teatro

Vi ontem uma coisa assaz singular, embora corrente em Paris. Todo o povo se junta depois de jantar e vai a uma espécie de cena a que ouvi chamar comédia. O grande movimento acontece sobre um estrado, ao qual chamam teatro”.
(Montesquieu, Cartas, 1712)

N/D
7 Jul 2003

Eram centenas de pessoas – a maioria sentadas e muitas outras de pé, porque já não tinham sítio para se sentar. De todas as condições sociais – percebia-se sobretudo pelos comentários. De todas as idades – via–se à vista desarmada. Foram ao teatro, ao ar livre, no Rossio da Sé. E riram-se a bandeiras despregadas. Melhor: rimo-nos, porque, para dizer a verdade, há muito que um espectáculo me não fazia desatar às gargalhadas até às lágrimas.

Dizem que os espectáculos gregos, e em particular o teatro, sempre tiveram essa marca distintiva que foi o de serem para o povo e com o povo. Feitos também ao ar livre, constituíam um ponto de encontro e de reunião de toda a gente. Tornavam-se espaços e momentos essenciais de aprendizagem e reflexão dos problemas da existência individual, das relações sociais e da própria vida pública. É claro que a tragédia era o género nobre, em que as grandes questões da existência eram tematizadas. Mas a comédia e o drama tocavam facetas sem as quais a vida seria mais pobre.

O teatro continua a desempenhar um papel fundamental, no quadro da cultura de massas e dos meios de difusão colectiva. E a prova foi que, na semana passada, todos, grandes e pequenos, voltaram a experimentar a intensidade emocional que muitas gerações viveram ao longo dos séculos e que é apanágio deste tipo de representações.

A recriação das vicissitudes domésticas do casal que pretende ir ao teatro e o intermezzo de uma rábula satírica sobre as novelas latino-americanas de lágrima ao canto do olho – foram os ingredientes e o pretexto.

O caso em apreço resultou de um trabalho de meses do grupo PIPH, conduzido por José Miguel Braga, que conseguiu, com actores que são “prata da casa” e mobilizando um grupo de estudantes espanhóis que se encontram a estudar em Braga no quadro do programa Erasmus, um espaço de crítica bem humorada, com momentos hilariantes. Sem recursos extraordinários, o grupo apresentou um trabalho digno, significativo para um público numeroso e heterogéneo, susceptível de leituras em diferentes registos, a que os presentes responderam com uma inquestionável adesão, expressa de vá-rios modos.

Há lá cena mais saudável do que ver gente satisfeita, a rir a bandeiras despregadas!

Em tempo – O espectáculo do PIPH ocorreu no âmbito do Festival Internacional de Teatro, organizado pela Câmara Municipal de Braga, que prossegue hoje e se prolonga por toda a semana.




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