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Quando a ironia anda pelos becos da ofensa…

Verificamos, recentemente, três episódios que poderão entrar numa classificação simbólica de ‘ironia’: a observação de Silvio Berlusconi (investido na qualidade de presidente da União Europeia) em que sugeriu a um deputado alemão no Parlamento Europeu que podia ser um bom chefe de campo nazi; o ensaio do presidente da Câmara Municipal de Nelas batendo palmas cadenciadas como forma de ‘aplaudir’ a criação de um concelho (vizinho e do seu município desmembrado) pela maioria da AR; a tentativa de fazer passar como ‘falta justificada’ – só mês e meio depois declarada sem justificação – a ida de trinta deputados portugueses à final da UEFA em futebol…

N/D
6 Jul 2003

Por certo haverá muitas outras estórias que poderiam ter idêntica denominação de ‘ironia’ se estivermos mais atentos e, naturalmente, capazes de entender o código… tão perspicaz com que imensos intervenientes na nossa vida pública, seja qual for vertente.
Fixemo-nos, no entanto, sobre os três exemplificados:

* A intervenção do primeiro ministro italiano roçou a boçalidade, não tanto pelo que disse, mas sobretudo pelo tom com que o referiu. De facto, a ferida do nazismo está ainda muito purulenta no povo alemão e chamar ‘capo’ (chefe) de campo de concentração não é propriamente um elogio…

As reacções que se seguiram acentuaram um certo histerismo de uns tantos iluminados contra o fenómeno do nazismo, desviando, no entanto, as atenções de não menores atrocidades que o comunismo cometeu. Ainda hoje, vemos graves preocupações no servilismo desenfreado para com o consumismo, provocando as consciências, narcotizando-as e comprando-as… Mas poucos est(ar)ão de atalaia!

* O autarca referido está melindrado porque lhe retiraram parte dos eleitores. Outros (Esmoriz e Samora Correia), que não foram atendidos nas pretensões em serem concelho, logo ameaçaram – e depressa o cumpriram! – deixarem de ser civilizados nos protestos.

Já vimos este filme em Vizela, na Trofa, em Canas de Senhorim… e isso, passados anos, resultou! A quem interessa o conflito? Até quando será preciso entrar pela violência (verbal, psicológica – agora na versão de ameaça de bomba – e/ou física) para se conseguirem objectivos de alguma independência? Será a criação de concelhos – ou mesmo a sua obstaculização – uma nova forma de caciquismo?

* As dúvidas suscitadas ao par(a)la-mentarismo pela ida à bola suscita-nos sobretudo perguntas: Porque terá sido tão difícil decidir com verdade que ir ver o futebol não é a mesma coisa que estar no Parlamento? Como é possível haver quem se encolha – o Presidente da Assembleia da República delegou nos seus vice-presidentes a tomada ‘definitiva’ de posição – diante do lóbi do futebol? Por que só se viram em Sevilha, a 21 de Maio, os altos dignitários de Portugal?

Terá sido aquilo um tão alto ‘acto de promoção’ do Euro-2004? Se foi, então teremos o país parado em Junho do próximo ano, pois terão de percorrer os dez estádios, tal a pressão em servirem de enfeite às bancadas vip’s!… Será isto benéfico para o país ou, antes, revelador do nosso subdesenvolvimento cultural? Terão os deputados sido eleitos para legislar com independência ou para darem cobertura a outras jogadas protagonizadas por outros mentores mais influentes na nossa vida colectiva? Futebol a quanto obrigas! Parlamento a quem serves?

A ironia nacional sempre foi muito prolixa em jogar com episódios destes, mas, às vezes, já nem com sarcasmo lá vamos. Talvez seja preciso chicote, tanto dentro como fora de portas!…




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