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Como avaliar a qualidade de uma cidade

“Coitados de nós, que ainda planeamos as cidades de acordo com os interesses dos construtores civis e as necessidades de receitas das câmaras”. A frase escolhida para insert podia fazer supor que Miguel Sousa Tavares falava, uma vez mais, do crónico desurbanismo nacional. O tema principal do texto publicado na sexta-feira passada no “Público” era, no entanto, outro.

N/D
6 Jul 2003

A referência ao caso português servia apenas para fazer um con-traponto com a profundamente elogiada cidade de Buenos Aires. “Cada povo tem as cidades que merece”, julga Miguel Sousa Tavares, que acrescenta que “os políticos argentinos não são melhores do que os nossos, pelo contrário, são bastante piores.
Mas o povo é infinitamente mais culto, mais exigente e mais civilizado. Não esperaram pelo Estado para se educarem, para aprenderem e para saberem fazer e exigir. E, se não podem exigir bons governos e bons políticos, podem exigir bons cafés, boas lojas, boas livrarias, bons teatros”.

Não há, evidentemente, boas cidades sem bons cafés, boas lojas, boas livrarias e bons teatros. E sem bons estabelecimentos de ensino, bons hospitais e tantas outras coisas boas. Há diversos indicadores que permitem medir a qualidade de vida de uma cidade.

A revista francesa “Marianne” fixou os seus para classificar, na sua edição relativa à última semana de Junho, as 10 mais importantes cidades francesas (Paris excluída). O resultado é bastante interessante. Entre nós, infelizmente, este género de estudos muito raramente é promovido por meios de comunicação social.

É, desde logo, instrutivo verificar o que, segundo a “Marianne”, permite avaliar uma cidade. Para a revista, contam dezasseis critérios: 1. o dinamismo político; 2. a mistura social; 3. a coexistência de automóveis, bicicletas e peões; 4. a qualidade do ar; 5. a superfície ocupada por espaços verdes; 6. os lugares de debate; 7. a pluralidade da informação; 8. a segurança dos habitantes; 9. a proximidade dos comércios; 10. o dinamismo económico; 11. a proximidade dos cinemas; 12. as mediatecas; 13. o dinamismo científico e cultural; 14. a prática desportiva dos habitantes; 15. a vida nocturna; e 16. a diversidade gastronómica.

A revista não deixou de explicitar o modo como estabeleceu a pontuação de cada cidade em cada um dos indicadores. O dinamismo político foi avaliado tendo em conta as iniciativas de interlocução com os cidadãos e a taxa de participação nas eleições autárquicas mais recentes.

No capítulo da mistura social, foi observado se os diferentes grupos sociais se mesclam nas zonas residenciais. As cidades com guetos de ricos ou de pobres tiveram piores classificações.

A localidade com a mais extensa superfície pietonal, o mais elevado número de quilómetros de pistas para bicicletas e as melhores estradas foi a mais bem classificada. Em Estrasburgo, que ocupou o primeiro lugar neste campo, 10% dos habitantes usam a bicicleta no dia-a-dia. A qualidade do ar foi estabelecida segundo as medições feitas por organismos oficiais.

O quinto indicador quantificou o espaço verde que cada cidadão tem ao seu dispor (no perímetro urbano, não nas redondezas). Toulouse é, neste aspecto, a melhor cidade com 1850 hectares de espaços verdes para os seus 390.350 habitantes.

Os cafés onde se discutem temas filosóficos – uma bem sucedida moda francesa – foram alguns dos lugares de debate tidos em conta no sexto indicador. Sendo a pluralidade da informação uma garantia do bom funcionamento democrático, este item também não podia deixar de ser considerado. Em relação à segurança dos habitantes, o estudo contabilizou principalmente os crimes contra as pessoas.

No ponto nove, a revista verificou o modo como o comércio de proximidade resistiu à pressão dos hipermercados instalados na periferia (em França, ao contrário do que entre nós muitas vezes sucede, a periferia não está no centro).

O dinamismo económico foi medido tendo em conta a relação do número de empresas criadas com as empresas deficitárias ou que foram definitivamente encerradas. No décimo primeiro indicador, quantificou-se o número de salas de cinema que sobreviveram à invasão dos “multiplexes”.

O número de espaços que permitem o livre acesso aos livros, aos vídeos, aos DVD e às bases de dados também foi considerado. Rennes, por exemplo, tem 15 mediatecas para os seus 206 mil habitantes. Diversos factores ajudaram a apurar o dinamismo científico e cultural.

Entre eles, estão a capacidade para atrair cientistas e investigadores, a existência de orquestras ou de teatros nacionais e o peso da cultura e da ciência no orçamento municipal. Só para a cultura, Lyon canaliza 25% do seu orçamento.

Na alínea catorze, foi verificada a percentagem de inscritos nos clubes desportivos de cada cidade em relação ao número de habitantes. No capítulo da vida nocturna, foi quantificado o número de estabelecimentos abertos à noite, designadamente bares, cafés-concerto e restaurantes. O último indicador apreciou as cidades onde se come melhor.

Pode-se apontar neste trabalho a falta de um ou outro indicador igualmente relevante para se avaliar a qualidade de vida urbana (a falha que mais se faz sentir é a que permitiria medir a facilidade dos munícipes no acesso aos cuidados de saúde).

Em todo o caso, estes indicadores podem ser úteis para, por exemplo, nos ajudar a compreender o que temos e não deveríamos perder e o que nos falta para que as nossas cidades possam ser lugares mais agradáveis para viver.




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