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Vivemos para aqui na ilusão

A frase já a tenho ouvido por diversas vezes e em diversas circunstâncias. Pois é esta mesmo: “Vivemos para aqui na ilusão”.

N/D
5 Jul 2003

Entretanto, desta vez chamou-me mais a atenção, pois ouvi-a de alguém de Trás-os-Montes profundo, onde me parecia quase impossível um riacho daqueles estar conspurcado e morto.

De facto, a água já parecia o nosso Rio Este em tempo de tormenta e de descarga lá para os lados de Braga (melhor, debaixo de Braga). A água vinha suja, escura; a roupa ficava “amarela”, os peixes já tinham debandado para outras bandas e as pessoas fechavam o nariz quando por ali tinham de passar. Mais ainda: para comerem tinham de subir ao primeiro andar, pois no rés-do-chão tornava-se impossível.

A população estava indignada e começava a ter saudades do tempo em que os peixes ali se reproduziam, ali se pescavam e eram servidos à mesa dos habitantes daquela terra.

Uns punham a culpa aos esgotos mal construídos, outros à ETAR prometida e nunca erguida e outros ainda aos “nuestros hermanos” que abriam as comportas de vez em quando e descarregavam sobre os portugueses.

Segundo a reportagem da televisão, as lamúrias daquele povo eram muitas e esperavam que as coisas tomassem outro rumo para poderem viver com qualidade. Entretanto, o nosso interlocutor exclamava: “vivemos para aqui na ilusão”. Há tempos li num jornal cá do nosso burgo, que as pessoas querem ver o Rio Este limpo até Arentim. Em Arentim termina o Concelho de Braga e depois começa o de Vila Nova de Famalicão.

Toda a gente sabe que a grande poluição do Rio Este nasce na cidade de Braga e agrava-se para os lados de Ferreiros e Celeirós: ali, em muitos lados, é uma perfeita fossa.

Pois, senhores de Braga, limpem até Arentim. De facto, temos de continuar a gramar tudo, mesmo tudo, que vem debaixo de Braga. O que não é agradável, não é saudável. Os peixes já fugiram todos há muito tempo, tal como naquela terra de Trás-os-Montes; água vemo-la, nós, de muitas cores em cada semana; os cheiros já são os bastantes para se andar incomodado.

Os “Amigos do Rio Este” promoveram, em colaboração com o CLAS de Famalicão uma sensibilização nas escolas desta zona, chamando a atenção para a poluição dos Rios (Rio Este e Rio Guizande).

Não sei bem por onde se há-de começar a sensibilização: se por cima, se por baixo. Entretanto, a mensagem foi mais bem captada pela pequenada do que pelos grandes. Talvez, os pequenitos, tal como se chamou a atenção nas escolas, venham a sensibilizar os pais. Acreditemos.

Todos os anos no dia do Corpo de Deus, celebramos a Festa do Rio que inclui a chamada ” missa ecológica”. Ali no meio das suas águas poluídas, celebramos a Eucaristia.

A finalidade é simples: no meio da natureza, cercados de prados verdes e de céu azul, olhando para o rio que nos banha e que é bem a veia vital desta região, queremos pedir perdão pelo assassinato da natureza, conspurcando as suas águas, e clamar bem alto que paremos de a matar, pois estamos a comprometer e a destruir o nosso próprio futuro. Gostaria que cada ano a mensagem passasse de boca em boca, de coração em coração e que os “de cima” ouvissem o clamor dos “de baixo”.

Doutro modo, não sei se Deus nos ouvirá, mesmo cantando e louvando a beleza no meio das águas do Rio Este.




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