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A histeria provocada por Harry Potter

Quem havia de dizer em 1997 quando saiu o primeiro volume das aventuras de Harry Potter, que a histeria colectiva se ia apoderar de grandes e pequenos, como tivemos ocasião de ver nestes dias aquando do lançamento do quinto volume de um conjunto de sete que Joanne K. Rowling está a escrever.

N/D
5 Jul 2003

Joanne K. Rowling viveu em Portugal onde foi professora de inglês num colégio particular. Regressou a Inglaterra com uma filha de meses e desempregada, enquanto esperava emprego, escreveu um livro que uma vez no mercado teve um enorme sucesso a ponto de Joanne deixar o lugar de professora para se dedicar só a escrever.

Os seus livros rapidamente passaram de best sellers a long sellers.

O objectivo de Joanne Rowling é contar histórias com sentido e que se desenvolvem num mundo próprio cuja lógica interna é sempre respeitada e onde são tratados minuciosamente os mais pequenos detalhes.

Nos seus livros a fantasia mistura-se com a magia, sem atingir, a meu ver, a bruxaria. Os relatos de fantasia foram sempre usados para provocar esperanças e temores e fazer ligações com as realidades invisíveis.

As aventuras trepidantes de Harry Potter estão cheias de referências literárias e culturais do mundo anglo-saxónico, e cada nome tem ressonâncias que se perdem ao querer traduzi-las.

O leitor jovem liga-se rapidamente às aventuras que decorrem com rapidez e é apanhado pelo anzol dos doces apetitosos como as “bolas de gelados voadores” ou o “creme de mentol em forma de sapo”. Para o leitor adulto Rowling não perde de vista que deve narrar a história muito bem, num mundo paralelo ao que vive Harry e os seus amigos e onde fornece pistas para se dar uma educação correcta.

A influência mais forte numa criança procede não do que se lhe diz mas do que ela vê e por isso a educação torna-se mais eficaz quando as qualidades que valorizam o livro coincidem não com as que proclama, mas com as que vivem os educadores.

Portanto, o pior não é uma novela donde apareça um problema familiar ou um professor odioso, mas sim aquela onde há discussões reais entre os pais diante dos filhos ou quando aparece um educador que não sabe dar o braço a torcer quando se engana em algo.

Num mundo onde impera a tecnologia e onde as crianças muito cedo a ela têm acesso, melhor que muitos adultos, a magia de que falam estes livros não é preocupante – eles estão habituados à cultura do click.

Há escolas inglesas onde são proibidos os livros de Harry Potter porque os seus livros apresentam como inofensivas pessoas de comportamento duvidoso. Isso é insensato uma vez que as histórias contadas inculcam na mente das crianças o que é bom e o que é mau.

Na perspectiva da equivalência magia-tecnologia, não falamos de magia boa ou má, mas sim de um uso bom ou mau dos poderes «mágicos».

O que faz genial a obra de Joanne Rowling é ter a capacidade de mostrar, a milhões de pessoas, que a fantasia é o género por excelência para colocar os jovens face ao sentido do mistério e dos perigos da existência humana.

Estas novelas não incitam à violência mas à reflexão sobre o mundo em que vivemos; falam da luta entre o bem e o mal com um uso correcto dos meios; não recorrem a nenhum gnosticismo suave e ridículo como o de A guerra das Galáxias, e sublinham, como sempre têm feito as grandes aventuras, que usar meios maus para ganhar sempre, supõe uma auto-derrota.

E por que lhe chamo eu no título «histeria»? Porque aquando do lançamento deste quinto volume, as pessoas ficaram descontroladas pela espera da hora “H” para comprarem o livro. Os meios de comunicação mostraram cenas verdadeiramente ridículas.

Bom senso mostrou o jovem que «dobrou» o filme de Harry Potter. Interrogado se já tinha comprado o livro respondeu calmamente: o meu pai encomendou-o e eu devo recebê-lo dentro de dois ou três dias. Não fez como aquela outra senhora que esteve horas na fila à espera das 0 horas do dia 21 de Junho para comprar o livro e dizer aos microfones: “vou lê-lo toda a noite; amanhã descanso durante o dia e quando acordar volto a lê-lo!”




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