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Suas megacompetências

Pela minha vasta experiência e pela leitura de vários estudos realizados por pedagogos especialistas, os encarregados de educação, quando questionados sobre se a génese da indisciplina radica na educação proporcionada em casa ou na que é transmitida na escola, a maioria ladeia o problema, furtando-se a dar uma resposta directa e fundamentada.

N/D
2 Jul 2003

Na verdade, e na sequência lógica do inquérito, partindo da suposição de haver alunos que entram na escola já indisciplinados e refilões precisamente porque, no meio familiar, os encarregados de educação não lhes souberam dar a formação consentânea com os princípios cívicos e éticos, eles contornaram novamente o problema afirmando tratar-se dos filhos dos outros e não dos seus.
Por outras palavras, para os pais o problema coloca-se de um modo diferente: se os filhos, que até são educados em casa, se tornam indisciplinados nas aulas é incontestavelmente porque há qualquer coisa que funciona mal na escola ou, então, a causa terá que se procurar na própria sociedade ou no sistema educativo vigente.

Neste contexto, e ainda segundo os encarregados de educação, os comportamentos divergentes poderão estar associados a um certo ritmo de abandono ou de desprotecção a que os filhos estão hoje votados, sendo suficiente que um elemento da turma entre em ruptura, para que todo o resto descarrile.

Assim sendo, para estes pais, a indisciplina prende-se, não tanto com o que acontece no seio de cada família, mas sobretudo com o modo como os docentes vêem hoje as suas tarefas.

Clarificando melhor esta versão, um professor interessado em colaborar com os pais nas iniciativas que estes desenvolvem é, segundo eles, capaz de ultrapassar mais facilmente situações de comportamentos desajustados do que outro que viva alheado ou distante das vivências familiares dos discentes.

Portanto, e ainda na óptica destes pais, o problema crucial põe-se no facto de os professores contactarem poucas vezes com a sua realidade social e familiar.

Ainda segundo algumas associações de pais, importante ou até indispensável para combater a indisciplina seria dotar as escolas de mais e melhores equipamentos e de outros instrumentos ou recursos físicos, didácticos e pedagógicos, bem como a implementação de actividades (não curriculares) alternativas para a ocupação de tempos livres e, nomeadamente diminuir a sobrelotação das escolas e reduzir o número de alunos por turma.

Porém, e ainda segundo essas associações, tal não impede que a escola actue na prevenção da indisciplina e se dote de mecanismos para punir os alunos que boicotem a aprendizagem dos colegas.
Diga-se também que, a respeito dos actos punitivos, há encarregados de educação que consideram excessivas as imposições dos Conselhos Escolares ou Conselhos Disciplinares, enquanto outros as acham demasiado leves e até benevolentes. A legislação, dizem alguns, está desactualizada e desadequada aos tempos que correm, devendo, por isso, ser revista, eliminando ou evitando as actuais margens de arbitrariedade.

Estas opiniões dos pais, no meu entender, são reveladoras das características que enformam a sociedade moderna, ou seja, a desvirtuação dos princípios cívicos mais elementares das relações humanas (a boa educação, o respeito pelos outros, as boas maneiras, o saber ser e saber estar…) e o aparecimento e a implantação de contra-valores (o hedonismo, o consumismo, o bem-estar material e a secundarização dos princípios espirituais).

É óbvio que a relação família-escola é, como diz Pedro Silva, “fértil em aparências e ilusões”. Por isso, entendemos que se torna relevante que a Sociologia ponha em evidência as dificuldades constatadas nesta relação e aponte as abordagens que repute de mais adequadas à sua superação.

É sabido que o sucesso escolar depende muito do envolvimento equilibrado dos encarregados de educação na escola, a qual, por sua vez, deve reconhecer os novos modelos de família, a história e a cultura locais e analisar a estruturação social da comunidade envolvente.

(Continua nos próximos números)




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