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(continuação)
3 – A problemática da indisciplina.

N/D
1 Jul 2003

b) A perspectiva dos docentes.

Após uma reflexão cuidada e profunda das sensibilidades detectadas no universo dos docentes, pareceu-nos adequado concentrá-las em quatro abordagens conceptíveis deste fenómeno.

I) Há aqueles que distinguem a indisciplina dos comportamentos perturbadores ou da distracção dos alunos.

II) Outros há que consideram que qualquer acto desajustado que afecte o bom funcionamento da aula é indisciplina.

Em consonância com estas visões, “falar sem levantar o braço” é acto inadequado, para os segundos, enquanto que não passa de um “exagero de vitalidade” próprio da idade, para os primeiros.
III) Há ainda os que consideram que a indisciplina é um sinal de alerta revelador de que algo está mal (não funciona bem). Daí preconizarem um ensino onde a participação dos alunos na gestão da aprendizagem é fundamental. Numa atitude clarificadora desta visão, a indisciplina é entendida por eles como consequência da ausência:

• de negociação entre professores e alunos;

• do estabelecimento de contratos respeitantes à aprendizagem e ao comportamento;

• de uma gestão cooperativa entre as turmas;

• de espaços e de tempos para debater os conteúdos.

Por outras palavras, a indisciplina é entendida como uma incapacidade psicológica e física de aguentar determinada situação.

IV) Um outro grupo de docentes acha que a indisciplina é um dado adquirido e, portanto, mais importante que combatê-la é preveni-la com a utilização de estratégias adequadas a cada contexto. Isto significa que, para eles, a postura com que se apresentam nos primeiros dias de aula é fundamental, bem como as regras que determinam o seu funcionamento. A partir daí, o docente deverá ter o máximo cuidado em aplicar sempre os mesmos critérios a todos os alunos (evitar os dois pesos e as duas medidas).

Porém, e apesar das atitudes preventivas, a indisciplina existe mesmo e, segundo o universo dos professores inquiridos, ela detecta-se dos mais diversos modos: alunos que perturbam sistematicamente a aula, riscam as carteiras, saem das aulas a correr, atiram com objectos aos colegas (e até aos professores, nalguns casos), se recusam a sair da sala quando expulsos, se agridem no decorrer da aula, cantam e até proferem obscenidades.

Nomeadamente, há até casos de alunos que insultam verbalmente e “provocam” o professor, para não falar daqueles que riscam as viaturas ou furam os pneus.

Vários estudos referem que existe a convicção (nos professores) de que os alunos do Litoral e do Sul do país são mais indisciplinados do que os do Interior e do Norte. Esta convicção leva, por vezes, os docentes a rotular os alunos de acordo com o meio onde estão inseridos.

Uma outra questão também polémica entre a classe docente prende-se com a relação indisciplina/sucesso escolar. Para uns, indisciplina é sinónimo de insucesso escolar, enquanto que, para outros, não é possível estabelecer essa correlação.

Outros há que pensam que a indisciplina pode ter a ver com o sucesso escolar, justificando que se exige cada vez menos dos alunos, pelo que aqueles que conseguem captar a matéria à primeira vez, não necessitam de estar com atenção no resto da aula, dedicando-se a desestabilizar a turma.

Há ainda quem defina indisciplina tendo em conta não só os comportamentos dos alunos, mas também os de toda a comunidade educativa. Para estes, a indisciplina é todo o acto perturbador das normas estabelecidas no território-escola, causado por problemas comportamentais que afectam o desenvolvimento e as finalidades do projecto educativo.

Finalmente, e pela experiência vivida aos longo dos anos, constata-se um certo número de factores propiciadores de comportamentos desviantes, tais como, a origem sociocultural dos alunos (provenientes de meios carenciados, tanto financeira, como culturalmente), a ausência de princípios cívicos e éticos em casa, a desorganização escolar, os currículos desajustados ao contexto local e regional e as reformas educativas feitas aos soluços e tardiamente.

(Continua nos próximos números)




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