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Ecos de desagrado

O ministro Bagão Félix parece querer mexer nos dias dos feriados e isso é um erro crasso em matéria sociológica. E no campo político ainda é pior. Ninguém convence ninguém que a data de determinado dia, que tem séculos de existência como dia feriado, passe agora a ser celebrado noutro dia qualquer, só porque isso representa alguma vantagem para a economia portuguesa. É o mesmo que me dizer que o meu dia de anos não é na quinta-feira mas é na segunda-feira seguinte.

N/D
30 Jun 2003

Compreende-se a boa vontade do ministro mas tocar nas tradições é o mesmo que ofender as crenças de um povo. Isto tem preços político-sociais muito elevados. Dizem alguns analistas que Cavaco Silva iniciou a sua curva descendente quando acabou com as mini-férias do Carnaval. Os senhores ministros devem abordar estas questões com a visão clara de que estão em jogo sensibilidades, usos, tradições e costumes que enraizaram quereres que o tempo consolidou.
O povo não quer ouvir as razões de Bagão Felix e está surdo a elas, porque se as não quer sequer ouvir muito menos as quer entender. Quer as suas festas religiosas nos dias próprios, quer as suas romarias naqueles dias marcados e naquelas dimensões que sempre tiveram, quer sentir este calendário como parte integrante das suas vidas. Quer continuar a dizer: «pelo São Judas já colhidas são as uvas», ou «pelo São Tiago pinta o bago». É assim o povo.

Que têm para lhe oferecer em troca? Índices económicos? Ora, se lhe mudam os dias, o povo perde a sabedoria do seu tempo e não quer outro saber senão este que sempre teve. Chegam de toda a parte ecos de desagrado contra o ministro da Segurança Social e do Trabalho.

Mas não chega a Bagão Félix a batalha do novo Código do Trabalho para se entreter, pergunta-se? Para quê fomentar uma nova briga por dez réis de mel coado? É vontade de beligerar! Mas se o ministro Bagão Félix teimar nesta questão, ainda que ela apareça muito bem fundamentada, ainda que muito estruturada em índices de produtividade e ganhos, será certo e sabido que mexe num vespeiro. Como dizem os brasileiros, «toca a onça com vara curta».

Deixem o povo em paz, deixem-no viver à sua maneira, preocupem-se com os grandes planos políticos e releguem estes aspectos mais caseiros para o gozo popular. É alguma coisa de seu que o ministro Bagão Félix lhes quer retirar. Não entenderá nunca como, no meio de tantos problemas económicos e sociais que tem o Governo, ainda sobra tempo para bulir no que deve estar quieto!

E depois, serão assim tão graves os prejuízos causados com os actuais feriados? Se a Nação está pobre não é, nem nunca foi, por causa dos dias dos feriados nacionais. Serão assim tão compensatórios os ganhos de produtividade com as mudanças dos dias dos feriados? Da poupança sai o remedeio mas nunca o remédio. Ou será que nisto tudo é maior a vontade de mudar do que a justificação para a mudança? Uma das condições básicas para se ser ministro é sentir o pulsar do povo. E, nesta questão, Bagão Félix está com o pulso de governante muito fraquinho!




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