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Dez anos depois

1. Os parcómetros, os mendigos… “e os arrumadores”. Faz este mês de Julho de 2003 dez anos que comecei a escrever artigos de opinião em jornais. Lembro-me perfeitamente do meu primeiro artigo, logo no “Jornal de Notícias”, intitulado “Parcómetros, mendigos e concorrência”. Achava eu então irónico (mas sintomático da nova civilização que se avizinhava, tecnológica e ultraliberal) que muitas vezes nos faltassem moedas para dar esmola a um pobre, apenas porque as tínhamos gasto todas nalgum parcómetro.

N/D
27 Jun 2003

Em dez anos, muito mudou. Há dez anos os pobres ainda pediam para si próprios. Mal adivinhava eu que anos volvidos, boa parte dos mendigos (sobretudo os das grandes cidades) passariam a “trabalhar” para mentores que ao fim do dia lá lhes dão uma côdea qualquer e lhes ficam com o dinheiro quase todo. Também não adivinhava eu que, ao longo dos anos 90, a maioria daqueles que pedem, o façam para obter o muito dinheiro que diariamente necessitam para satisfazer o vício da droga. E que, por isso mesmo, o pedinte típico seja agora um jovem toxicodependente e não um pobre velho, um doente ou um deficiente.
Mas na altura, o que me impressionava mais era a “concorrência” entre a Máquina e o Homem. E que esta fosse tal, que já tivesse extravasado do campo industrial e laboral. E até invadisse agora o campo daqueles nossos irmãos pobrezinhos que são obrigados a mendigar para obter a sua parca subsistência.

Em 1993, não adivinha eu também que a generalização do fenómeno dos “arrumadores” de automóveis (que ainda hoje se mantém em algumas grandes cidades) viesse a constituir uma “subtil e irónica vingança” contra aqueles metálicos espantalhos camarários.

E isto porque em certos sítios e épocas, foram os ditos “arrumadores” que venceram a “batalha contra as máquinas”, pois antes que o automobilista fosse introduzir na fenda do omnipresente parcómetro o seu contrariado óbulo, lá aparecia o “asseado” toxicodependente da praxe e dizia que o agente da PSP só costumava passar daí a três horas (fosse isso verdade ou mentira…).

E deixava entender que, ainda que fosse só por ter fornecido esta “preciosa” informação, se achava no direito de por tal ser pago numa quantia quase idêntica à que se iria pagar ao seu rival metálico. E ao contrário desta fria máquina, o moço heroinómano até fazia um pequeno desconto. Não correspondendo à “amabilidade”, o automobilista tinha normalmente direito a ouvir meia dúzia de palavras que não vêm nos dicionários. E o seu bólide, esse tinha direito a um elegante risco que chamaria mais a atenção do que as lustrosas “jantes” com que vinha equipado…

2. Alguma influência? Se alguém escreve, é porque procura influenciar os acontecimentos. Resultou isso dos meus trabalhos, até ao momento algumas centenas de artigos? De alguns sim, penso. Honro-me de, por exemplo, ter dado a minha pequena contribuição ideológica para que fosse adiada “para as calendas gregas” a construção duma barragem no baixo rio Sabor, esse afluente transmontano do Douro, o qual apesar de ter mais de 120 km de comprido, escarpas monumentais e uma vegetação e fauna notáveis, quase ninguém conhece, em Portugal ou no estrangeiro.

Orgulho-me também de ter criticado, desde sempre, a eucaliptização do país; e de ter denunciado aquilo que alguns (já poucos felizmente) ainda não perceberam; e que é a ligação entre os incêndios florestais (95 por cento deles, criminosos) e essa mesma ulterior eucaliptização.

Orgulho-me também de ter desassombradamente (e sem complexos ou hipocrisias…) defendido a manutenção da taxa de 0,5 como limite máximo de alcoolemia admitida na condução automóvel; defendendo assim o saudável costume português de acompanhar uma boa refeição com cerveja (ou com vinho em dose moderada e sempre seguida de café); evitando assim que o português médio (que é condutor diário) acabasse por substituir o álcool pela droga, como forma de combater o “stress” do dia a dia.

Ainda no “Jornal de Notícias”, lembro-me de também ter contribuído para a salvação de Nino Vieira. E para a simpatia crescente dos portugueses para com esse bravo, nobre e inteligente guerreiro que foi Jonas Malheiro Savimbi (tão amigo que ele era dos netos de Viriato e dos artilheiros de Paul Johannes Kruger, essas duas estirpes entorpecidas); dr. Savimbi este, que tão odiado sempre foi pelo nosso sempre incompetente Ministério dos Negócios Estrangeiros…

3. Batalhas perdidas. Mas também houve derrotas, que só não foram amargas, porque há muito tempo estou habituado a elas. Por mais Racionalismo Integral com que tivesse defendido algumas causas, certas poderosas máquinas de propaganda hostis impediram o convencimento do público. Para mais o Porto (e sobretudo a querida Braga) ficam num periférico canto da nossa Europa (e até de Portugal…).

Perdi assim a batalha decisiva contra Maastricht, em 93 (quando deveríamos era ter assinado um tratado de adesão que melhor defendesse a soberania dum pequeno país como Portugal). Perdi (até ao momento) a batalha pelo reconhecimento da Sérvia como uma potência europeia e cristã (tal como a vizinha Croácia) fiável nos eternos conflitos balcânicos (em detrimento de um ridículo, artificial e recém-formado estado muçulmano na Bósnia, obviamente pro-turco).

Ainda não fiz também vencimento da posição pro-europeia do antigo presidente Milóshevitch (e da sua inocência no que respeita a eventuais “crimes de guerra”, praticados por alguns seus subornados).

E perdi a batalha para que não houvesse esta segunda invasão americana do Iraque, que (ao contrário da de 91, que foi motivada pelo ataque ao Kuweit) é agora totalmente hipócrita e não fundamentada. E não consegui também expor a tempo as deficiências (de vária ordem) que aconselhariam a que o dr. Barroso, antigo extremista da esquerda, se não alcandorasse a líder máximo do centro-direita português e dos conservadores em geral.

4. Razões de ter começado. “Confiteor”. Em 1993, senti um impulso moral para trocar a advocacia (para a qual não tinha grande vocação, nem “estofo nervoso”, até) pela escrita. Continuei talvez a ser advogado, mas de outra maneira, bem mais lata e livre.

Foi o sucessivo desabar de uma série de instituições, que haviam sido pilares do Mundo no tempo dos meus longos estudos, que me acicatou a “participar”, ainda que modestamente, no devir mundial. A queda dos impérios coloniais (excepto nas Américas, claro…); ou Thatcher, que atacava a Argentina mas não defendia a Rodésia inglesa; e sobretudo o descalabro da União Soviética e da República Sul-Africana.

Nos anos 90, com a percepção da importância do lado oculto da Política e da História, criei um auto-convencimento (quiçá exagerado) da necessidade, do dever mesmo, que me compete de interpretar os acontecimentos à luz do edifício de sabedoria que gradualmente fui construindo. E é o que tenho feito. Para servir a Deus e ao povo.




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