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Acredito na justiça*

Ouve-se constantemente dizer “acredito na justiça”, ao mesmo tempo que se exerce pressão sobre os seus agentes para que a sentença final aconteça como se vai dizendo.

N/D
26 Jun 2003

Concretizando, os detentores do poder e políticos por demais conhecidos vão dizendo “acredito na justiça” mas o A e o B, presos preventivamente, estão inocentes. Ora se estão inocentes como dizem – até ao julgamento pressupõe-se que assim seja – esses senhores acabam por não acreditar na justiça porque mantêm presos, preventivamente, pessoas que eles afirmam estarem inocentes. Até parecem os dirigentes de algumas equipas de futebol que perdem os jogos, não porque os jogadores jogaram mal, mas por causa dos árbitros.
A Comunicação Social começou a fazer investigação tal como se fosse um outro ramo da Polícia Judiciária e, ao mesmo tempo, vão relatando o que supõem ser a pista certa para a descoberta de algo que se procura, o que me parece errado, porquanto à Comunicação Social compete informar dando as notícias que vai descobrindo, mas nunca deverá investigar, ou dizer que investiga, seja o que for que ultrapasse o mero dever de informar.

Já se ouviu uma estação de televisão dizer que das investigações feitas em conjunto com o jornal X concluíram “isto e aquilo”. E é “isto e aquilo” que vai formando a opinião pública.

Não sei o que pensa disto a Polícia Judiciária, se acha que é uma colaboração que lhe é prestada, ou se se trata de uma ofensa, porque dão como certo o que a polícia não descobriu, logo põe em causa a competência dos seus agentes.

Assim como o dizer-se que A ou B estão inocentes constitui uma pressão sobre a justiça ou sobre os seus agentes, também nestes casos de investigação é uma pressão feita aos agentes encarregados, e até uma ofensa.

Acreditar na justiça é saber esperar o desfecho dos casos, mesmo que neles estejam envolvidas pessoas nossas conhecidas ou amigas. Se a Comunicação Social por força das suas funções descobre algo que lhe parece um dado importante para os processos que estão em curso, antes de o noticiar, deverá comunicá-lo aos legítimos possuidores de tais processos e só dar a notícia que os profissionais do assunto entendam ser conveniente.

Acresce ainda que se fala muito em segredo de justiça e, face às notícias difundidas em determinados momentos, surge a interpelação: afinal o assunto está em segredo de justiça e já é do conhecimento dos jornais, rádio e TV, e logo de seguida de todo o público. Para quê o segredo de justiça? Para os senhores advogados é capaz de ser uma boa desculpa para fugirem ao assédio da Comunicação Social que, às vezes, parece de facto exagerado a todos os que são consumidores das notícias.

Há, no momento, bastantes casos cujos contornos não se compreendem bem. Estou a lembrar, por exemplo, quando foi entrevistada a ex-presidente da Câmara de Felgueiras que afirmou partir para o Brasil antes de saber que havia sido ordenada a sua prisão preventiva e a entrevistadora não a pôs ante a realidade de tomar o avião em Espanha e não em Portugal como o faz qualquer pessoa normal. Das explicações que pretendeu dar a respeito de ser uma foragida (ela diz que não) à justiça portuguesa, faltou este pedido de explicação que era por demais evidente.

Mas deixemos os factos que estão a decorrer sobre os quais muita coisa haveria a dizer e não se diz (o que é mau) porque assim cada um terá de deduzir o que entender e, como não há dois entendimentos iguais o povo vai falando e dizendo, muitas vezes aquilo que está fora da linha da verdade.

Por este motivo, e depois de tanto se dizer, acho que já é tempo de se acreditar na justiça e nos seus agentes esperando que a justiça dê o seu veredicto, uma vez que ao dizer-se que A ou B está inocente ou culpado, é pressionar o que não pode nem deve ser pressionado, mesmo que por um político de renome.

* Este artigo foi escrito por Manuel Joaquim Catarino no mesmo dia (20.06.2003) em que Jesus o chamou a si para o Céu – Maria de Lurdes Catarino




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