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Estão verdes…

Estão verdes; não prestam: nem os cães as podem tragar». Isto dizia, na fábula, a raposa, referindo-se às apetitosas uvas, que se encontravam demasiado alto, demasiado longe do seu alcance…

N/D
25 Jun 2003

Nestas fábulas velhinhas encontram-se autênticos tesouros de sabedoria, que serviam aos antigos para explicarem aos filhos e aos netos que coisa é a vida e que coisa somos cada um de nós. Como sucede que a nossa natureza humana não sofreu alterações depois dos anos e dos séculos, e como a vida também não se alterou senão em aspectos de superfície, estas pequenas histórias mantêm o seu encanto e a sua actualidade.
«Estão verdes; não prestam…». Tendemos a reagir deste modo quando deparamos com objectivos que sabemos serem bons, mas parecem impossíveis de alcançar. É a forma airosa de desistirmos; a nossa desculpa perante nós mesmos e perante os outros. Não queremos admitir a nossa incompetência, o nosso fracasso, a nossa preguiça…

E, no entanto, as uvas continuam lá, chamando por nós. Como coisa boa e desejável. Ainda que – numa atitude que carece de honestidade – digamos que «estão verdes; não prestam».

O bom desta fábula, como também sucede com outras semelhantes, é que facilmente entendemos que as uvas não significam exactamente uvas. Simbolizam todas aquelas coisas a que a história se pode aplicar. Basta chegar ao texto e trocar as uvas por um outro bem, e trocar a raposa por um de nós, e trocar as circunstâncias da fábula pelas nossas circunstâncias.

E parece-me que a história dos tempos em que vivemos é uma versão, gigantesca e ridícula, da fábula da raposa e das uvas. Temos, sem dúvida, uma inteligência que é atraída pela verdade, e uma vontade que se inclina para o bem. Mas, como verificámos que a verdade nos compromete e que o bem é difícil de alcançar, desistimos. E encontrámos uma forma de não nos considerarmos – e de não nos considerarem – desertores, falhados, derrotados.

O que fizemos, então, foi dizer que, afinal, não existiam um bem e uma verdade objectivos e válidos para todas as pessoas. Que isso eram coisas de antigamente, velharias ferrugentas («estão verdes; não prestam»…). Que cada um de nós é senhor de definir para si mesmo um bem e um mal. Que a verdade é aquilo que cada homem considerar como verdadeiro, passando a haver não uma verdade, mas muitas «verdades»… (com isto, a verdade «deixou» de ser aquilo que concorda com a realidade, para passar a ser aquilo que, num determinado momento, convém a cada um).

Estabelecemos o relativismo. Com ele, temos agora bens que estão ao alcance da mão – bens materiais, claro, pois os outros são os mais difíceis de alcançar. E uma moral adaptada aos nossos gostos, na qual só fazemos o mal quando quisermos achar que «aquilo» é um mal. E verdades variadas, que se adaptam com facilidade aos nossos interesses. Desenhámos à nossa volta um mundo que julgávamos à nossa medida, e acabámos por não saber de nós.

Mas andamos emproados pela rua, orgulhosos do nosso papel de «medida de todas as coisas». Totalmente inchados, como o alpinista que, já esgotado, decidisse que a meia-encosta era o cume, e hasteasse ali a bandeira do triunfo enquanto esperava que os jornalistas chegassem para levar a notícia do êxito ao mundo inteiro…

Podíamos, pelo menos, rir-nos um pouco de nós mesmos. É uma atitude saudável que pode muito bem ser o início de uma outra forma de estar na vida.




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