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Uma tarde sem ela

A televisão não dá, a televisão está sem sinal. Alarme. Telefonem para os serviços a clientes, reclama-se. É uma avaria geral. Terror. E agora como vai ser, sem ténis para o pai, sem telenovelas para a avó, sem a informação da bolsa para o avô, sem o canal de história para a mãe? Olharam uns para os outros, com a sensação de estarem pobres, indefesos e deixaram-se prostrar nos sofás da sala sem ter nada que fazer. E o silêncio caiu rotundo. Os assuntos não surgiam e, mudos e quedos, deram-se fé de que já não sabiam conversar. Olhavam para o relógio de minuto a minuto, bocejavam de tédio, escutavam os barulhos da rua para ver se ouviam o piquete das avarias chegar.

N/D
23 Jun 2003

Levantavam-se, ora um ora outro, e espreitavam para a rua, esta brutalmente indiferente aos seus sofrimentos; outros, encafuados até às orelhas no sofá, apresentavam um ar vazio e estúpido. E a televisão sem sinal! O avô foi ver a sua biblioteca: lá estavam, o Garrett, o Camilo, o Eça, o Fernando Pessoa, o Júlio Dinis, o Alexandre Herculano, o Vergílio Ferreira, o Saramago, o Victor Hugo, o Aquilino, Guerra Junqueiro, e mais alguns outros velhos companheiros. Há muito que os não visitava.
Agora, que as novas amizades lhe faltavam, vinha procurar os velhos ombros. Olhando para uns e para outros, abraçando-os no mesmo afecto, ficou sem saber como pedir-lhes perdão. Olhou para os livros técnicos no seu realismo muito profissional. Não estava com disposição para os reler.

Os outros, sim, porque via saltar de dentro de cada página os heróis e as heroínas duma vida desde há muito partilhada. Mas faltava-lhe ali um livro. Estará fora do seu alinhamento? Não, faltava mesmo. Perguntou se alguém o teria retirado para o ler. – Fui eu, disse-lhe um dos netos. Não tinha televisão para ver e então fui buscar este. Que maravilha de tarde! O neto, sem bonecos para ver, tinha ido tirar da colecção dos seus livros de menino e moço “Os Três Mosqueteiros”.

Que extraordinário, o avô voltava a acreditar que o gosto pela leitura começava pelos livros de aventuras e, ó consolo dos consolos, neste caso particular, um livro onde um naco da história da França do século XVII e as aventuras de quatro gentis homens se misturam num enredo que só Alexandre Dumas poderia ter contado. E, no entanto, também lá tinha os livros de leitura mais chã: as Aventuras de Lagardère, de Sandokan, ou d’O Corsário Negro. Com um livro nas mãos, sentou-se a ouvir o desespero dos que o olhavam em silêncio.

Quem disse que o silêncio grita, tinha razão. Era irritante ouvir o pequeno som
do granitado da televisão cheio de inutilidades.

– E os técnicos já não vêm hoje, quase se dizia em desespero de causa. – E são horas da telenovela das seis e eles não aparecerem! O tempo afinal, sem televisão, custa muito a passar. Tocou o telefone. Rostos espetados na resposta: só amanhã. Morta a esperança era preciso reaprender a conversar. A pouco e pouco as palavras soltas foram-se ligando em frases e nexos. Era o fio de água que começava a correr.

Mas aquilo que já fora torrente era agora um lacrimejar. A nascente foi engrossando a cada instante e ao fim de alguns minutos e muito esforço, já se conversava. As individualidades já sabiam novamente ser pessoas. O avô e o neto estavam agora de fora, mas é bom sair de dentro quando os que ficam, ficam bem. Que bom foi ter uma tarde sem ela!




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