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Os correctivos do bom senso e o disparate oficial

É bastante difícil encontrar uma alma capaz de dizer que aprova o uso generalizado das cunhas. Estas têm uma conotação pejorativa e, por isso, nunca são assumidas como meios razoáveis para alcançar quaisquer objectivos.

N/D
22 Jun 2003

Simultaneamente, é difícil encontrar quem não aceite abrir uma excepção e tolerar o recurso a uma cunha. A regra só pode ser quebrada quando – claro! – a cunha puder resultar em proveito próprio. Se os beneficiários forem os outros, as cunhas, neste caso, transformam-se em paradigmas da imoralidade.
Neste período do ano, os principais utentes das cunhas são os estudantes. Nem todos têm o mesmo perfil. O género maioritário de cliente das cunhas é o cábula. Nada fez de útil durante o ano lectivo de modo que agora precisa de apresentar uma razão fortíssima para justificar a pretensão de passar de ano. O argumentário clássico sugere que se use, em casos extremos, uma mãe ou um pai à beira da morte para tentar domesticar os professores das disciplinas com chumbos já anunciados. Há anos, uma história assim era praticamente infalível.

Recordo-me bem de uma estudante – subdotada, aliás – da Universidade do Minho que conseguiu concluir o seu cursinho porque o pai lhe morreu várias vezes por ano durante vários anos seguidos. Há males que vêm por bem. Uma história do género foi imortalizada na banda desenhada Quotidiano Delirante pelo galego Miguelanxo Prado.

Quem não tinha nada de cábula era D. Luís de Castro. Por isso, José Maria Eça de Queirós não teve qualquer pejo em solicitar a Joaquim Pedro Oliveira Martins para meter uma cunha em favor desse sobrinho da sua mulher.

Para justificar o pedido, enviado através de uma carta de Bristol datada de 29 de Julho de 1886 (Correspondência. Porto: Livraria Chardron, 1926. 2.ª edição), Eça concede à cunha diversos – e talvez surpreendentes – efeitos benéficos. “O empenho [o “empenho” é a cunha queirosiana] é o correctivo do bom senso público aplicado ao disparate oficial. Sempre que um Regulamento, saído de um antro burocrático, impõe ao público uma prática tola, o público coliga-se por meio do empenho, para lhe anular os efeitos funestos”.

O escritor compreendeu “a filosofia e a secreta moral do empenho” quando assistiu “ao pavoroso espectáculo dos estudos do Luís de Castro”. Eça descreve-o assim a Oliveira Martins: “Ele quer ser, creio eu, engenheiro naval: e para isso andava introduzindo dentro do crânio, por meio de um martelo e de um compêndio, um tratado de direito civil, as ‘Éclogas’ de Virgílio e a lista de todos os reis de França e de Inglaterra, com os seus nomes, os seus números, as suas alcunhas, as suas famílias, os seus bastardos e as suas fundações pias”.

Ou seja, “quando um rapaz quer ser engenheiro, o Estado imediatamente lhe ensina Retórica e Direito Canónico; e quando o temperamento de outro moço o inclina para a Teologia, logo o Estado o torna pro-ficientíssimo em Desenho Linear e Botânica”.

Eça exprime o desejo de curto-circuitar um Estado que, “imbecil, exige que meu filho ou sobrinho, que quer ser engenheiro, saiba de cor a Lógica do João Dória e a Retórica do Cardoso”. O escritor é claro no seu propósito: “Vou direito ao examinador e, por meio do empenho, consigo que o rapaz venha a ser engenheiro, sem nada saber dos impossíveis físicos e metafísicos e da teoria do silogismo. Tal é o grande, nobre papel do empenho na sociedade portuguesa: ele é a conjuração do bom senso positivo contra o idealismo obsoleto e tolo das instituições”.

A argumentação do escritor, como ele, de resto, reconhece, destina-se a convencer Oliveira Martins da bondade ou da legitimidade do pedido para interceder para que D. Luís de Castro “seja aprovado em todas essas matérias que o Estado lhe fez decorar, que ele decorou com paciência e submissão, mas que, no momento preciso, lhe podem esquecer – como todas as coisas que a gente sabe só de cor, e só em obediência ao Estado”.

Mais de cem anos depois, é curioso verificar que ainda vale a pena pedir um empenho para todos os que também decoraram as incontáveis matérias que o Estado lhes fez decorar, com idêntica paciência e submissão, mas que, no momento preciso, podem igualmente ser esquecidas, “como todas as coisas que a gente sabe só de cor, e só em obediência ao Estado”. Os senhores professores – e os profissionais de muitos outros sectores de actividade – saberão talvez quando se deve aplicar “o correctivo do bom senso público aplicado ao disparate oficial”. O Estado, esse, sabe bem que pode sempre contar com estes correctivos que evidentemente o autorizam a persistir no disparate.




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