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Interpretações dos desafios da “Nova Era”… hoje

Foi em 1973 que foi editado o filme “História de Fernão Capelo Gaivota”, cuja música, enredo e mensagem tanto fascínio causou nos espectadores. Ora, à distância de trinta anos, devemos tentar descobrir o que esse filme de culto da “Nova Era” significou, particularmente à luz de um documento da Santa Sé, publicado em Março passado.

N/D
21 Jun 2003

Eis algumas vertentes prenunciadas no filme, por muitas pessoas bebidas e subtilmente vivenciadas em tanta gente – assim o cremos, embora nem sempre o sintamos – de boa fé:
a) Auto-estima – À pergunta inicial: «Porquê? Porque não sou capaz?», vai crescendo em confiança nas suas energias, a gaivota, primeiro rebelde e depois vencedora pelo sonho vai até à conquista final.

O processo de auto-cura vence as descrenças dos outros, desde que voe mais e mais alto, em auto-suficiência. A admiração dos outros crescerá paulatinamente na medida em que também eles entrem na dimensão holística da crença numa “nova era”, isto é, da passagem da “idade de peixes” para a “era de aquário”.

Quanta subtileza nesta proposta de tentativa de fazer do homem um pequeno aglomerado de energia, onde Deus pouco sentido tem e Jesus Cristo não passa de um “ente crístico” mais ou menos recôndito de prática meramente intimista. Cada um é “deus de si mesmo”, nesse princípio sublimar do satanismo: “faz o que quiseres”!

b) Espiritualidade – Mais do que uma expressão de religião, particularmente na dimensão oficial, tradicional e monoteísta, nota-se a componente das espiritualidades em linguagem mais ou menos sincrética, isto é, misturando, de forma transversal, elementos diversificados de cada uma das religiões antigas numa versão esotérica, preferencialmente anti-cristã. Nesta época tão vazia de sentido de dimensão de Deus, embora sedenta do “divino”, a “Nova Era” surge como resposta à aridez materialista de tantos dos nossos concidadãos, alguns dos quais deficientemente evangelizados.

c) Reincarnação – As várias vidas conduzem à perfeição, aprendendo a “voar sem limites”. Dalguma forma a responsabilidade pessoal dilui-se… num grande todo, sendo amortecida pela vontade de aprender, manifestada na necessidade de saber, haurindo agora da liberdade e conseguindo chegar à realidade da ideia mais perfeita. Usando uma terminologia ocidentalizada do conceito hinduísta de reincarnação, esta serve a panóplia de dúvidas a muitos dos nossos contemporâneos, onde o sentido de vida tem horizontes muitos limitados, mesmo no entendimento do sofrimento e até da própria morte.

d) Ecologia – A mudança da “gaivota” dá-se quando, passando de etapa em etapa, sobe até plamar em busca do sentido a seguir, em equilíbrio harmonioso com a natureza, o cosmos, rumo ao paraíso, como perfeição… Diante de uma certa agressividade protagonizada pelo homem contra a natureza, tem crescido a sacralização da “mãe-natureza” (Gaia), numa linguagem de energia panteísta absorvente de opções sócio-políticas por nostálgicos da década de sessenta do século passado.

e) Globalização – Esta ideia vai-se desenrolando, numa simbiose cúmplice entre vários sectores, desde a da comunicação até à política e mesmo nas dimensões social e religiosa (entendida como espiritualidade) sincréticas. Verificamos, numa análise mais atenta, que uma certa ideia de global particular está patente, em esoterismo da “Nova Era” ao nível da comunicação social, das ideias de educação, dos projectos culturais (cinematográficos ou musicais), nas opções políticas… dentro dessa tão propalada globalização.

De facto o documento dos Conselhos Pontifícios da Cultura e para o Diálogo Inter-religioso, “Jesus Cristo, portador da água viva – Uma reflexão cristã sobre a ‘Nova Era'”, depois de uma análise simples mais aturada deste “movimento” como corrente cultural, lança desafios à Igreja Católica, tanto aos responsáveis como a todos os fiéis.

– «A eficácia pastoral da Igreja, no terceiro milénio, depende, em grande medida, de proclamadores eficazes da mensagem evangélica». De facto, falta algum ardor – essa característica preferida de João Paulo II – na nova evangelização!

– «Desejo autêntico de espiritualidade mais profunda, de algo que toque o seu coração e de maneira que dê sentido a um mundo confuso e, muitas vezes, alienante». Com efeito, as pessoas precisam de encontrar novo/outro rumo na sua vida: quantas vezes continuamos, como Igreja Católica, a usar os mesmos métodos já estafados para comunicar a novidade permanente da Palavra de Deus!

– A Igreja deve levar os seus membros a «alicerçar-se ainda mais solidamente nos fundamentos da própria fé, e escutar o grito, tantas vezes silencioso, que se eleva do coração das pessoas e que, se não for escutado pela Igreja, as levará para outras paragens». Efectivamente, temos de nos perguntar sobre a definição de objectivos na nossa evangelização e catequese: damos doutrina ou olhamos – tal como elas nos procuram – as pessoas?

– «Os fiéis devem ser exortados a unir-se mais intimamente a Jesus Cristo para estar prontos a segui-Lo». Mesmo depois do ano jubilar – só foi há três anos! – as nossas celebrações (litúrgicas ou outras) levarão sempre a Cristo? Não andaremos perdidos na meta, tropeçando nas etapas?

A “Nova Era” não é boa – melhor, é muito perigosa, insidiosa e fascinante – tanto pelo que diz como pelo que insinua, mas poderá servir-nos para nos revermos e, sobretudo, convertermos ao Deus trinitário, pessoal e eclesialmente.




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