Fotografia:
“In illo tempore”

Ao ritmo a que a vida tem evoluído, neste início do século XXI, a década de cinquenta do século passado parece estar mais próxima da publicação do livro de Trindade Coelho, cujo título ouso pedir emprestado, que dos nossos dias.

N/D
21 Jun 2003

Designava-se então por ensino secundário o percurso escolar compreendido entre a escola primária e a universidade, formado por um conjunto de sete “degraus” que era necessário subir para se atingir o patamar desta última.
Em alguns casos mais pessoais e pontuais a escada era aumentada de um ou mais degraus, quando os professores (antepassados algo longínquos dos actuais “profes” e “setôres”), entusiasmados com a actuação de um aluno, lhe pediam para repetir um determinado ano e ele lhes fazia a vontade para não os desiludir. Situação esta que continua plena de actualidade.

Guardado desde essa altura no sótão das minhas recordações, arranjei hoje tempo para dar (mais) uma vista de olhos ao álbum dessa época. Logo na primeira folha está a fotografia da entrada principal do liceu, na qual se pode ler “Liceu Normal…”.

No país eram apenas três os liceus que tinham esta designação, por neles funcionarem os estágios de docentes; os liceus que com eles “coabitavam” em Lisboa, Porto e Coimbra, mais os restantes, existentes um pouco por outros lados, eram “Liceus Nacionais”.

Aliás uma coisa que me fez sempre espécie foi as capas dos cadernos do meu liceu dizerem “Liceu Nacional” e as folhas de exercício, lídimas antecessoras das folhas de teste, dizerem “Liceu Normal”.

Será que o ensino só era “normal” em parte?! As próprias “cadernetas escolares” da altura, que talvez devessem ter sido chamadas “cadastro do aluno” pois se limitavam a ter as notas e faltas, chegavam a misturar as duas designações.

Detenho-me agora numa fotografia de turma. Teve de ser tirada na escadaria de entrada pois, além dos professores, a turma comportava quarenta e três alunos (não há qualquer engano no seu número, contei-os agora mais uma vez).

Nunca o substantivo “alunos” do género masculino e número plural foi aplicado com tanta propriedade; é que as únicas “saias” que se viam lá pelo liceu eram as das professoras, pois as raparigas frequentavam o liceu feminino da cidade (É bom recordar que naquela altura as mulheres não usavam calças).

Era a segregação total, saias para um lado e calças para o outro, baseada numa disciplina que, pretendendo ser rígida, caía por vezes no ridículo, como prova a fotografia que a seguir “revelo”.

A gravata era adereço imprescindível para um rapaz entrar no liceu feminino, posta que fosse numa camisa à sport (de gola tão prática que não tinha a tira de tecido que é cingida pela gravata). Foi por esse motivo que assisti a uma prova oral de uma das minhas irmãs “com um nó na garganta”.

Deste álbum de recordações faz também parte um filme (que os vídeos haviam de ser tecnologias de tempos futuros) para cuja projecção convido os “presentes”, a fim de poderem apreciar o som e o movimento de uma cena da época.

Estamos em mais uma aula da turma atrás referida. O mestre, como sempre sentado na sua cadeira atrás da secretária, diz a certa altura: «Ouvi um barulho para a parte do fundo da sala; e veio do lugar do Rocha. Foste tu, rapaz?» Ao que o atingido como submarino em jogo da batalha naval responde assarapantado: «Não fui eu, foi aqui para a minha esquerda».

Servindo-se da planta da sala, qual detective de mapa nas mãos, o investigador, disfarçado de professor, constata do alto do estrado de dois degraus e sentado que continua na sua cadeira giratória: «Ora à esquerda do Rocha está o Júlio. Então foste tu, rapaz!» Um pouco menos espantado que o seu colega, pois o método usado na investigação é o habitual, este último replica: «Não fui eu; ouvi aqui para a minha frente». Continuando a consulta da planta, o inquiridor faz ouvir de novo a sua voz: «Ora à tua frente está o Pimentel; então foste tu o autor do ruído».

Sacudindo a água do capote, o atingido diz que o barulho foi à sua frente, lugar ocupado pelo Costa, que, inquirido, diz, sincera mas ingenuamente, não ter ouvido nada. A sentença, habitual, cai então em cima deste último como um cutelo: «Cá está o criminoso! Vais ter a respectiva falta de castigo, rapaz!» Ao ouvir a sentença do professor, que era mau como as cobras, ou não leccionasse ele Ciências Naturais, o “condenado” percebeu que a sinceridade não compensa quando os alunos estão entregues à bicharada.

À saída da aula o Costa vira-se para o Pimentel a pedir explicações do sucedido, tendo obtido deste a seguinte resposta: «Se eu tivesse dito que não tinha ouvido nada, apanhava eu a falta».

Uma vez que não podia recorrer da sentença, o “réu” começa a congeminar a vingança, que acaba por servir a frio, embora com um aumento das pulsações inerentes ao acto, no terceiro período do ano lectivo seguinte. No único teste, para si decisivo, ele recorre magistralmente a um pequeno mas bem organizado e eficaz auxiliar de memória para completar o seu vasto leque de conhecimentos da matéria em causa, tendo com este seu procedimento fintado a iminente raposa pela (nota) positiva.




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