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A confiança num projecto cultural

Como referíamos ontem, a Universidade do Minho (UM) não dispõe dos espaços culturais adequados ao nível do que se exige a uma Universidade com milhares de alunos, numa cidade que se diz terceira do país, capital de uma região de um milhão de habitantes.

N/D
18 Jun 2003

A Rádio Universitária (RUM) está esquecida numa cave em Santa Tecla. E merece instalações decentes por ser uma rádio que procura estabelecer a ponte entre a cidade e a Universidade e para se poder libertar da decadência em que infelizmente caiu. O Teatro Universitário (TUM) tem umas instalações miseráveis. E é lamentável que todos os pequenos grupos de teatro da cidade não tenham, como no Porto, pequenos auditórios para trabalhar, sem ter que sistematicamente improvisar espaços para levar à cena as suas peças. A Associação Académica (AAUM) e os vários grupos académicos há anos que esperam por novas instalações.
A cidade, através da Câmara Municipal (CMB), dá a ideia que nada tem a ver com o assunto, não se preocupando em criar ou pensar espaços adequados a uma “cidade universitária”.

Podemos continuar a fingir que as instituições públicas não têm obrigação de dotar a cidade de espaços dignos ou insistir com grande dose de irresponsabilidade e de tacanhez que a cidade já tem infra-estruturas suficientes (como se afirma no documento de candidatura a capital da cultura – ver www.projectobragatempo.net/documentos). Podemos também dizer com o Sr. Presidente que a Câmara não deve interferir na cultura.

E então aguardaremos que um particular se lembre de construir a expensas suas o tal auditório imprescindível ou uma sala de exposições e outra de estudo. Ou que um morador da zona da Universidade abra solidariamente os portões do quintal à malta estudante visto que para aqueles lados não há praças nem parques nem jardins…

Mas também podemos pensar seriamente na nossa cidade e imaginar um pólo cultural na zona. E para que as instituições não se desresponsabilizem mutuamente, esse centro cultural tem de partir da colaboração de todas. O espaço que poderia preencher parte das grandes lacunas culturais da nossa cidade é, sem dúvida, o da Saboaria Confiança na rua Nova de S.ta Cruz.

A centenária fábrica está a deixar as instalações e é a única indústria do século XIX que resta a Braga depois de todas as outras terem sido destruídas (*). Os edifícios da Confiança precisam de um projecto e a CMB, a cidade e a UM de um espaço amplo como o da fábrica.

Daí que uma parceria entre a CMB, a UM, a AAUM e a própria administração da Confiança seja a solução para um conjunto de elevado interesse patrimonial e que há muitas décadas é uma referência para todos os bracarenses (e não só, visto que a marca é, em todo o país, associada a Braga).

Nas amplas instalações da fábrica instalar-se-ão as infra-estruturas que a UM não oferece: um auditório preparado para conferências e espectáculos, uma sala de estudo aberta à noite e ao fim-de-semana, um bar, residências, etc. As instalações reconvertidas poderão ainda albergar vários organismos dispersos como a RUM, o TUM e a AAUM (para alívio dos moradores da D. Pedro V). A CMB instalará uma videoteca que é um dos melhores equipamentos que oferece à cidade (embora muito mal dinamizado…) e um espaço amplo para exposições, como já reivindicou e bem o Dr. Rui Prata, Director do Museu da Imagem.

Por outro lado, a própria administração da Confiança já afirmou que tem interesse em fazer um museu com o seu espólio. E é evidente que um Museu da Confiança apenas faz sentido nas velhas instalações. Afinal, quem é que irá visitar um museu a um qualquer moderno e inestético parque industrial do concelho? Além disso, a fábrica já há mais de 10 anos que autoriza e convive com vários espectáculos.

É também tempo de todas aquelas pes-soas com mais de 35 anos que tiveram o privilégio de conhecer a Braga das indústrias assegurarem que os mais novos vão poder conhecer, ao menos, um dos edifícios desse género. Os membros do ProjectoBragaTempo tiveram apenas a possibilidade de conhecer a última dessas indústrias. Será que aos mais novos também será dada essa hipótese?

Nem sequer é nada de novo. Várias cidades têm recuperado as suas instalações industriais: Aveiro tem um centro cultural na antiga fábrica Campos (*); o Porto recuperou o edifício da Alfândega, instalou o Museu do Eléctrico na Central de Massarelos e vai recuperar uma fábrica no Freixo; a Covilhã instalou em fábricas uma parte da Universidade e o Museu dos Lanifícios; Ermesinde, Albergaria e Portalegre têm ou vão ter um Centro Cultural (*); Guimarães vai recuperar toda a zona de pequenas fábricas de Couros (os bracarenses deveriam dar mais atenção aos excelentes exemplos de preservação de património vindos de Guimarães).

E Braga que fará? A decisão final cabe ao Sr. Presidente da Câmara. E certamente que o Sr. Presidente não vai impedir a sua neta de, tal como os mais velhos, conhecer e visitar (e desfrutar) a Perfumaria e Saboaria Confiança.

(*) Mais informação em www.projectobragatempo.net/confianca




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