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A política cultural da nossa cidade

A cultura em Braga tem estado na ordem do dia. No entanto, o debate tem sido muito fraco como, aliás, o próprio Presidente da Câmara já constatou. E por que será se há afinal tantas queixas sobre a política cultural bracarense?

N/D
17 Jun 2003

Porque ninguém acredita que as mesmas pessoas que durante quase 30 anos não quiseram pensar e adoptar uma política cultural séria que estivesse ao nível da cidade que Braga merece ser – e era tão simples, bastava começar por adaptar o programa cultural de uma qualquer cidade média europeia – apareçam agora a propagandear um genuíno interesse por estas questões.
Porque não é normal que uma Câmara velha consiga libertar-se de vícios entranhados que põem em causa um requisito fundamental da cultura: a liberdade (há quem não goste de mendigar subsídios).

Por isso, os projectos de Capital Nacional e Europeia da Cultura não passam, no fundo, de uma mera cirurgia plástica. Uma operação cosmética com o intuito claro de demonstrar, à beira do fim, uma abertura a novas ideias e projectos e uma juventude que já há muito desapareceram. No fundo, mudar sem mexer em nada, numa espécie de Primavera Mesquitista.

Todavia, se a CMB não tem uma ac-tuação exemplar, o que dizer de outras duas instituições da cidade com grande responsabilidade na área cultural, a Universidade do Minho (UM) e, em segundo plano, a Associação Académica (AAUM)? Ambas têm vindo sistematicamente a demitir-se das suas obrigações no campo da cultura.

Do ponto de vista de quem a frequenta, a UM tem sido somente uma inócua linha de produção em série de licenciados. A AAUM, por seu lado, assiste impávida e serena. Às 20h00, em ponto, o campus de Gualtar fecha. De todo aquele extenso conjunto de edifícios não fica uma biblioteca aberta, um auditório, uma sala de estudo, ou, ao menos, uma cantina e um pequeno bar!

Entre as 20h00 e as 08h00 e durante todo o fim-de-semana a Universidade não existe, não quer saber dos seus alunos e até lhes fecha os portões. Durante todo esse tempo a UM não tem um único espaço disponível onde os estudantes possam organizar uma conferência, um debate, assistir a um filme ou a um programa de televisão ou um simples café para se poderem encontrar e conviver ou até estudar à noite.

Se os seus estudantes quiserem organizar alguma actividade depois das 20h00 a UM vira-lhes as costas. E se a UM não se preocupa em dotar-se das instalações adequadas ou em adaptar as que tem a horários diferentes dos de uma repartição pública, muito menos organiza e promove eventos directamente dirigidos aos seus milhares de alunos.

O cenário agrava-se se repararmos que em toda a área envolvente do campus – de Gualtar às Enguardas e da Quinta da Armada a Lamaçães – onde vivem alguns milhares de alunos, não há qualquer espaço cultural (com excepção dos cinemas) ou uma praça e um jardim dignos do nome. Em toda esta “cidade universitária” há apenas restaurantes, cafés e bares que, salvo raras excepções, são de muito fraca qualidade. Todavia, pior do que não existirem os espaços e não haver qualquer intenção de os criar. Como é regra por todo o nosso concelho, os únicos projectos são os de construir mais umas dezenas de edifícios de habitação.

É esta cidade que oferecemos aos estudantes e docentes da UM – será esta a hospitalidade bracarense de que tanto se fala?

Daí que para a maioria dos estudantes Braga seja um vazio. Como se já não bastasse ter de viver em blocos de apartamentos iguais aos de uma cidade do 3.º mundo! Se não fosse o frenesim de alguma vida nocturna os estudantes partiriam sem saudades da nossa cidade.

Pode não parecer importante, mas é toda esta inexistência de cultura associada ao excesso de cimento que explica em alguns alunos mais conscientes a pressa de sair de Braga (em regra, para o Porto) e noutros um estranho desconforto que faz com que muitos vivam cá cinco ou seis anos sem que a cidade e eles próprios se cruzem e se conheçam. É curioso observar que as universidades de Coimbra e do Porto formam não só doutores, mas também conimbricenses e tripeiros. É pois imprescindível que a UM e a AAUM, a CMB e os bracarenses se preocupem a sério com a forma como recebem e tratam os estudantes.

Os responsáveis poderão continuar a desculpar-se com a não participação dos cidadãos. Poderão continuar a assobiar para o lado e a invocar a falta de verbas. O que é certo, porém, é que o primeiro passo, o impulso inicial e que deverá assentar numa forma radicalmente diferente de encarar a cultura tem que ser dado pelas instituições públicas.

A Câmara, a UM e a AAUM têm a obrigação de agir, em especial numa altura em que a universidade já não é só privilégio de uma elite com dinheiro mas também daqueles que nunca puderam ter contacto com as mais diversas manifestações de cultura. A vinda de alguns milhares de alunos todos os anos para Braga e para a Universidade corresponderá a uma oportunidade certamente única para muitos. Ou não.

(Continua na edição de amanhã)




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