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Jornalismo e cidadania

A arrogância, no jornalismo, pode não ser a fonte de todos os males, mas é seguramente um “pecado capital”. E pela simples razão de que trata toda a gama de casos, situações e problemas da vida social, dos mais simples aos mais complexos, dos mais familiares aos mais distantes, dos mais aparentes, aos mais dissimulados.

N/D
16 Jun 2003

Não há “omnisciência” que resista a tal desafio. Porque é da vida que vive o jornalismo: na sua pujança ou na sua negação, na sua desconcertante simplicidade ou no seu fulgor. O jornalismo é tudo isso e é isso que o pode tornar aliciante ou, pelo contrário, uma desilusão.
A questão deixada em suspenso há oito dias foi a de saber como se pode prevenir ou atenuar os riscos do abuso, da manipulação e da mentira em jornalismo. O motivo foi o escândalo que, nas últimas semanas, surgiu no jornal The New York Times, precisamente aquele que muitos consideram “a bíblia” do jornalismo.

Como foi possível que um repórter pudesse inventar, plagiar e falsificar tantas peças ao longo de tanto tempo, sem que as rotinas da própria redacção tivessem captado o que se passava? Como explicar tantos outros casos análogos, entretanto vindos à luz do dia?

Há pelo menos dois níveis em que é necessária uma vigilância permanente: dentro dos órgãos de comunicação e da parte do público utilizador das notícias.

No interior das redacções e das empresas jornalísticas é necessário estar atento à qualidade de quem se contrata e ao desenvolvimento de uma cultura assente em práticas de verificação e controlo da informação e no cultivo de uma atitude responsável de cada interveniente, tendo presentes os direitos do público.

Uma cultura de competição exacerbada, de corrida à “cacha”, de sobrecarga de serviço que não deixa tempo à ponderação dos assuntos e à “checagem” da informação, conduz inevitavelmente à deterioração da qualidade do jornalismo.

A criação de conselhos de leitores, da figura de provedor, o hábito de assumir e corrigir erros e de prestar contas pelas opções e orientações pode ter nisso um papel relevante.

Mas do nosso lado, do lado dos leitores, muito de decisivo pode ser feito: quantas vezes vemos os erros e calamos? Quantas vezes não estamos para nos aborrecer a protestar, sugerir ou a aplaudir? Quantas vezes nem sequer conhecemos os direitos (e responsabilidades) que a lei nos confere?

A qualidade do jornalismo depende em grande medida da acção e do modo de estar dos media. Mas depende em grau não menor do escrutínio público que é, cada vez mais, um campo decisivo do exercício da cidadania. À arrogância dos media pode corresponder uma simétrica arrogância dos cidadãos.

PS – Uma foragida da justiça decidiu dar um espectáculo a partir do Rio de Janeiro. As nossas três televisões caíram-lhe aos pés, rendidas. A cerimónia de entronização foi um mega-evento deplorável, com uma actuação da nossa RTP ainda mais deplorável.




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