Fotografia:
À gente desconhecida

O 10 de Junho é dia de festas e condecorações. Camões fica em segundo lugar porque nos dias que correm «outro(s) valor(es) mais alto se levanta(m)». Algumas figuras foram agraciadas com pompa e circunstância; não discutimos o mérito ou demérito das condecorações, o que lamentamos sinceramente é que volvidos tantos anos não houvesse tempo, nem lembrança ou disposição, verdade ou patriotismo capazes para condecorar, não os ideólogos, ou os idealistas da Revolução de 25 de Abril de 1974, mas a adesão espontânea e maciça das gentes de Lisboa.

N/D
16 Jun 2003

Gentes do povo que saíram à rua para avalizar o feito. Nas bermas dos passeios ou confraternizando em cima dos carros de combate, disseram sim sem nada esperarem em troca. Um pouco por toda a parte há um monumento ao Soldado Desconhecido, merecida homenagem àqueles que, sem nome nem patente ilustre, se bateram com bravura nas trincheiras da Primeira Grande Guerra.
Pois parece-nos que agora, com igual propósito, se deveria erguer na praça nobre de cada localidade de Portugal um monumento que perpetuasse aqueles que «não movidos de prémio vil» puseram o amor à liberdade em primeiro lugar.

Mas sobre essa gente de Lisboa, que em explosão de anuência deu corpo e alma à revolta dos Capitães de Abril, vai caindo o som cavo e espesso do esquecimento. É o pó da ingratidão. Por toda a parte os portugueses aderiram ao movimento, mas nada que fosse tão significativo, nem tão rápido ou tão espontâneo como fizeram as gentes de Lisboa. Sem essa adesão popular talvez a revolução não passasse de um feito militar que bem poderia ter ficado por uma vitória sem significado social.

Por este facto é que se diz, e bem, que a Revolução dos Cravos tem uma paternidade alargada porque toda ela se mistura na pertença dos que a realizaram e na dos que de pronto a adoptaram.

Devemos, assim, a esta gente uma consagração em monumento que diga aos vindouros que o 25 de Abril teve no povo um eco e um consentimento sem reservas. Não têm que ter ciúmes os bravos Capitães de Abril, porque desses se encarregará a história de os exaltar e relembrar. Já estão nos manuais escolares. Arreceamo-nos que a alma dessa adesão popular, na expressão da sua efervescência e na força pura das suas razões profundamente sociais, vá esquecendo diluída pela corrosão dos tempos.

Este sentimento não está nos manuais escolares. Quantos foram? Ninguém os saberá contar ou distinguir. São rostos da multidão que, na vala comum do anonimato, deram a sua presença por uma causa. Quando tudo estava ganho e consolidado não faltaram os “revolucionários de longa data”. Mas o povo aderiu quando a incerteza era uma certeza. São soldados desconhecidos duma causa que só não pariu uma guerra porque deu à luz um cravo.

Por isso, em dia de condecorações, quão gratificante seria vermos o sr. Presidente da República ir colocar ao Monumento à Gente Desconhecida da Revolução dos Cravos uma coroa de flores, com estes dois versos dos Lusíadas, na peanha: «E aqueles que por obras valerosas / Se vão da lei da morte libertando».

Camões, perdoa-me este jeito vesgo de te lembrar. Aceita-a como uma humilde gratidão, neste dia que era só teu. Esta é a medalha que tem faltado e de todas a mais apetecida pelos portugueses que olham o 10 de Junho sem grande apreço.




Notícias relacionadas


Scroll Up