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Portugalidade: sentimento a reforçar

Em tempo de descrença colectiva, de desconfiança relativamente às instituições públicas, de crise de princí-pios e de valores éticos e morais, de perda do sentido da autoridade e da dignidade do Estado e de profundas alterações na ordem internacional, não admira que a auto-estima dos portugueses tenha descido a um nível perigosamente baixo e os cidadãos, mesmo os mais optimistas se interroguem sobre as perspectivas que se abrem ao futuro de Portugal.

N/D
12 Jun 2003

Como é timbre das gentes do Minho, pouco dadas a cruzar os braços perante a adversidade e o fatalismo das circunstâncias, recuso-me a aceitar a inevitabilidade do ocaso da pátria. A voz da nossa multisecular história e a memória dos nossos egrégios avós conclamam-nos a participar activamente na reconstrução moral e material da Nação.
E neste urgente empreendimento não tenho dúvidas que os minhotos hão-de sentir uma responsabilidade acrescida e hão-de estar na primeira bancada dos obreiros, ou não tivesse sido justamente aqui, que, sob a tutela política do castelo de Guimarães e à sombra espiritual da Sé de Braga, se forjou a nacionalidade.

Por mais incerto que seja o presente, nada nem ninguém conseguirá ocultar a grandeza do passado ou tolher os rumos do futuro, enquanto as sucessivas gerações de portugueses, tal qual os seus antepassados, souberem guardar e honrar a terra onde nasceram, defender e promover a língua em que se expressam e preservar a sua cultura, história e tradições.

Bem sabemos que os homens passam. Mas não ignoramos que as instituições permanecerão vivas se e enquanto souberem os seus membros manter actuantes os valores matriciais que aquelas enformam.

Ora, entre as diversas acções e políticas que podem ser desenvolvidas para conseguir este desiderato estão algumas bem simples como as de defender o ambiente, proteger o mar, apostar numa agricultura selectiva (vinho, frutos, legumes), fomentar o turismo, ordenar o território, incrementar a educação e a cultura, lutar por uma efectiva descentralização administrativa, combater a corrupção e o populismo, estimular a solidariedade social, incentivar o investimento e a criatividade empresariais, premiar o mérito e garantir o ensino da língua e cultura pátrias no seio das comunidades portuguesas espalhadas pelo mundo.

Porém, para que tudo isso seja possível, julgo essencial reforçar o conceito estratégico nacional que tem de passar pelo aprofundamento da nossa condição europeia, sem, todavia, descurar a nossa natural vocação atlântica. Mais do que qualquer outro país europeu têm os portugueses especiais condições para fazerem do seu país um elo de ligação entre o Ocidente e o Oriente.

Em África como nas Américas, na Ásia como na Oceânia, deixamos sementes da civilização cristã e ocidental e trouxemos dessas outras paragens valiosos conhecimentos de outras culturas e distintos modos de vida.

É precisamente esse enorme capital humano e essa mundividência que temos de pôr ao serviço de uma nova ordem planetária para que, como dizia Pessoa, “se cumpra Portugal”.

Foi esta brevíssima reflexão que, anteontem, não pude deixar de fazer quando se evocava o dia de Portugal, de Camões e das comunidades portuguesas.




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