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Nem anjos nem diabos

Se me não engano, a afirmação ouvi-a uma vez a D. António Montero, Bispo de Badajoz. Os jornalistas não são anjos nem diabos. São homens como os demais. Considero jornalista o profissional que procura, trata e divulga a informação.

N/D
12 Jun 2003

Estou persuadido de que a generalidade dos homens da informação procura fazer o seu trabalho com consciência e com competência. Homens como os outros, há falhas que inadvertidamente cometem. E como acontece entre os demais seres humanos, é possível haver também quem não seja muito escrupuloso no exercício da profissão. Quem se sirva do poder que tem para objectivos pessoais ou de grupo e não para servir a comunidade. Mas esses, estou convencido, são em número muito reduzido.
É um erro, por causa disso, pretender lançar o descrédito sobre toda uma classe que presta um notabilíssimo serviço à sociedade e cujo valor não deixa de ser reconhecido sempre que diz verdades que nos não incomodam e que até gostamos de ouvir.

Em artigo publicado no diário madrileno ABC, em 12 de Maio, Luis Ignacio Parada, penso que referindo-se à guerra do Iraque, falava do comportamento diferente de diferentes jornalistas nos focos de tensões e conflitos mundiais.

A par dos que, correndo todos os riscos, procuram estar nos lugares-chave e ouvir quem deve ser ouvido, há os que investigam a partir da janela do quarto do hotel ou se limitam a veicular informações produzidas pelos gabinetes de comunicação social.

Refere Luis Parada o caso de um jornalista de um conhecido jornal internacional acusado de ter inventado crónicas que enviou a partir de locais onde nunca tinha estado.

«É muito fácil – explica. Hoje, com um telemóvel, um computador portátil, uma base de dados em CD e uma ligação à Internet por infravermelhos podem-se fazer maravilhas. Pode-se, inclusivamente, criar um estúdio virtual onde o jornalista aparece diante de um edifício em que entram e saem pessoas, a bordo de uma cápsula espacial ou no meio de uma batalha. Não é difícil surpreender a boa fé dos chefes, dos leitores, dos ouvintes e dos espectadores. Se nos não enganam mais é porque não querem».

José Manuel Barata-Feyo, no prefácio à primeira edição da tradução portuguesa do livro de Alain Woodrow Informação Manipulação, faz reflectir sobre o que é e o que deve ser a actividade jornalística. Escreve, a propósito da Guerra do Golfo: «Em nome e pela causa sacrossanta do princípio da concorrência, empolaram-se factos, inventaram-se situações, manipularam-se povos inteiros, mentiu-se deliberadamente».

O jornalista é, antes de mais, um servidor do bem comum. Deve ter a independência bastante para informar com rigor e com imparcialidade. Se, em vez de servidor do bem comum, a sua grande preocupação é a de cuidar da própria imagem e a de querer aparecer como herói; se, em vez de agir como servidor do bem comum, a sua grande preocupação consiste em, sem olhar a meios, fazer subir as vendas do jornal ou as audiências da estação de rádio ou de televisão para que trabalha, pode correr o risco de não fazer o que deve ou de fazer o que não deve.

Dizia Barata-Feyo começar-se a reflectir sobre a eventual necessidade de se criar um quinto poder para controlar o quarto, que é a Comunicação Social. Com essa finalidade, penso, se têm elaborado os códigos deontológicos, que todo o jornalista deve respeitar.

O consumidor da Comunicação Social, por sua vez, deve sempre ter a consciência de que está perante um produto feito por homens. Por homens que procuram acertar, por homens que também têm as suas fragilidades, por homens que às vezes também cometem erros. Por isso se recomenda que se não leia o jornal como quem lê a Bíblia.




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