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Apontamentos “ao acaso”

1. Dia Mundial da Árvore. Actividades e iniciativas são semeadas um pouco por todo o lado, tentando sensibilizar as pessoas para a preservação da grande família vegetal. Algumas entidades hão por bem oferecer pequenos exemplares arrancados ao primeiro berço, acabados que são de nascer. Talvez assim quem as vier a plantar as trate com mais carinho e, por tabela, às suas parceiras (mais) adultas.

N/D
12 Jun 2003

Não sei se foi numa situação destas que as duas senhoras as adquiriram. Deram-me nas vistas pela idade que aparentavam ter; bem entradas no outono da Vida, uma talvez septuagenária e a outra aparentando estar mais perto dos oitenta, transportava cada uma a sua pequenina planta, embrião de uma futura árvore. E logo no dia em que começou a Primavera.
Que melhor mensagem de esperança poderiam elas anunciar? Plantar uma árvore para a ver crescer. E um comentário (imaginado) me surgiu então: «Quero plantá-la para a ver crescer como se uma filha fora e para vir a comer dos seus frutos enquanto me acolho à sua sombra».

2. O contraste entre os poucos condutores que não cumprem e a generalidade dos que o fazem leva-nos por vezes a atingir um determinado grupo, instituição ou empresa, quando dizemos que um condutor “pisou o risco”. E lá ficam os colegas todos metidos no mesmo saco, ficando com a fama sem terem tido o proveito.

Que dizer do condutor de um pesado de passageiros que, em hora de ponta, se preparava para atravessar um cruzamento desta cidade com uma mão no volante e a outra a… segurar o telemóvel encostado ao ouvido (pelo que é lícito pensar que estava em comunicação com alguém)? Talvez tenha sido por isso que parou no stop de modo a impedir o cruzamento de um veículo ligeiro com o seu pesado. Interpelado pelo condutor deste último, pela reacção que teve, pareceu que a sua atitude não lhe pesou minimamente na consciência.

Ou então que pensar daquele condutor de ligeiros que não respeitou um determinado sinal de trânsito e, confrontado com a situação, respondeu com “linguagem de pesados”? Poucos dias depois lá estava ele a fazer a mesma manobra.

Como comentar a atitude de um terceiro condutor que, tendo por si o peso e as medidas do veículo que conduzia, dificultou ao máximo o cruzamento com um ligeiro? Avançou quanto pôde e, numa atitude muito pouco delicada, ao parar apoiou os braços sobre o volante e olhou para a “formiga” desafiando-a a desenrascar-se. Justiça se faça louvando a atitude de um seu colega de empresa, que facilitou a um peão o atravessamento da via, longe de qualquer passadeira, olhando pelo retrovisor exterior e fazendo àquele, que tinha o campo visual completamente tapado pelo “monstro” que conduzia, um cordato sinal para atravessar.

Permitam-me que estes exemplos tenham sido apontados em abstracto para não atingir concretamente qualquer grupo, entidade ou empresa. Pensemos que em qualquer bom pano pode cair uma nódoa. Pode ser que num próximo apontamento cite um rosário de boas maneiras e de civismo da generalidade dos condutores.

3. A Vida tem, ainda e felizmente, muitos instantâneos belos. Há dias observei casualmente a saída de uma escola à tarde. Alguns pais esperavam os seus “filhotes”, como carinhosamente muitos
se referem a eles; outros, por qualquer motivo que não vale a pena imaginarmos, delegaram nos seus progenitores a incumbência de irem buscar os netos.

Foi em duas destas cenas que detive o olhar, porque “destoavam” um pouco da normalidade e da rotina das restantes. Para um lado, a criança saltitava alegre e descontraída, trauteando uma cantilena e batendo as asitas, como que gozando uma liberdade que não tivera talvez durante o dia, enquanto o avô puxava calmamente a mochila do neto fazendo deslizar ao longo do (largo) passeio as rodinhas sobre as quais ela assentava.

Atrevi-me a imaginar que no entretanto ele ia a rememorar o tempo em que nem o pai nem o avô o iam esperar à saída da escola primária, quando ele carregava a tiracolo a sua mala de cartão com fecho de lata e reforçada com duas tabuinhas laterais, tudo forrado a papel castanho por fora e acinzentado por dentro, e protegido com leves tiras de lata.

Para o outro lado caminhava um quadro enternecedor. A criança, pouco mais crescida que a anterior, levava às costas a sua mochila de nylon ou fibra e no coração uma alma de ternura, reflectida no rosto. Regulava o seu passo pelo do avô, o qual se deslocava com dificuldade, tanta que precisava de se apoiar numa singela bengala; de repente dava a impressão que o neto o tinha ido esperar…

4. «… Eis a questão»

Muito longe de mim tentar reflectir, ou sequer devanear, sobre a alternativa entre a vida ou a possibilidade de lhe pôr termo, como fez o grande “mestre” no famoso solilóquio em que sobre tal meditou; seu “aluno” que fui, mais ou menos dedicado (e compelido pela matéria do curso então escolhido), apenas aproveito palavras dele para iniciar este apontamento.

Como naquele momento estava sem paciência para fazer o que quer que fosse, sentei-me ao computador para fazer uma paciência. Enquanto esperava, impaciente, que ele se iniciasse, comecei a pensar que a vida é em si mesma uma paciência. Então abri o Word e, pedindo licença a uma tecla para bater a seguinte, resolvi divagar muito devagar sobre esta questão.

Pensei por exemplo que é preciso ter paciência para atingir um objectivo ou para prosseguir sem desfalecimento uma caminhada, por gosto ou por necessidade. Que é necessário tê-la para evitar mandar à … (“pi” – mea culpa) uma pessoa que é mal-educada quando atravessa a passadeira com sinal vermelho para os peões e o verde para os carros e, à buzinada de um condutor, responde com um “calma” ou lhe chama “estúpido”. Esta situação é apenas uma pequenina gota de água no grande oceano das vicissitudes com que nos deparamos todos os dias.

A qualidade em causa tem em seu redor uma bela corte de aias que lhe complementam a educação dos príncipes que estão dispostos a frequentar os seus aposentos; encontra uma preciosa aliada na perseverança, que age com a ajuda da tranquilidade, permitindo desse modo aos interessados levarem a água ao seu moinho, para que o engenho funcione sem lhes moer a respectiva paciência; ainda que tal se torne por vezes difícil diante de mais ou menos, ou sucessivos, desaires ou fracassos que possam surgir.

Quando tal virtude não é fácil ou parece mesmo impossível, há que chamar à corte a constância, que nunca nega ajuda a quem dela se abeire ou a procure. E ela trará consigo o inestimável atributo de um pajem chamado ânimo. Surge finalmente entre “elas” um masculino, feliz da vida por estar em tão belas companhias.
Para os mais renitentes ou fracos, o grupo da corte aceita de bom grado se lhe junte a firmeza, igualmente disposta a colaborar e que arrasta consigo outras – por exemplo, a segurança, que afasta os receios, a força, que pode fazer-se acompanhar de um outro pajem, conhecido por vigor, aliado que ajuda a robustecer a vontade dos interessados.

E depois de tantas considerações o FreeCell mais o Solitaire desta vez ficaram por treinar por falta de… paciência.




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