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A Constituição Europeia elimina a referência a Deus

Várias têm sido as sugestões, com destaque para as do Vaticano, para que a futura Constituição Europeia inclua uma referência expressa aos valores cristãos. A Europa sofre um momento grave no plano religioso e o declínio da fé é largamente apontado.

N/D
11 Jun 2003

Jean Delumeau escreveu: «É certo que o cristianismo encontra actualmente dificuldades na Europa. Mas não se pode estender este diagnóstico ao resto do mundo. Além disto, é precisamente na Europa onde os esforços para renovar o cristianismo são mais intensos».
Valery Giscard d’Estaing, que lidera a presidência da Comissão que estuda a futura Constituição, quer que ela inclua uma referência expressa aos valores cristãos.

A proposta de Giscard provocou polémica entre os que querem uma referência clara às raízes culturais e espirituais da Europa e aqueles que pretendem que se atenda aos países que no futuro poderiam aderir sendo de cultura islâmica, como a Turquia.

Vinte parlamentares, membros da Comissão, apresentaram uma proposta, a qual previa incluir na futura Constituição dois artigos sobre os valores religiosos da Europa:

1) que na carta fundamental se recorde «quanto a Europa deve à própria herança espiritual e moral»;

2) que «os valores da União incluam os valores daqueles que crêem em Deus como fonte de verdade, justiça, bem e beleza, como também daqueles que não partilham esta fé mas respeitam estes valores universais sobre a base de outras inspirações».

Compreendemos a preocupação de quem está a trabalhar em tão notável assunto e compreendemos a prudência com que agem.

Impressiona-nos, no entanto, a coragem de quem afirma a sua fé e o diz com esta clareza: «A referência a Deus na Constituição da União Europeia não pode ser vaga. Não se devia ter medo, não só porque a imensa maioria dos europeus, por fé ou por cultura, tem as suas raízes no cristianismo, mas sobretudo porque os nossos valores fundamentais derivam do Evangelho».

São palavras de Liliana Cavani, cineasta.

E aos que não têm coragem para agir com toda a objectividade e clareza, diz: «Em minha opinião, não se devia temer, não só e não tanto, porque a imensa maioria dos europeus, por fé ou por cultura, têm as suas raízes no cristianismo, mas sobretudo porque os nossos valores fundamentais derivam do Evangelho por sua absoluta riqueza e claridade em eleger paz, fraternidade e justiça».

Liliana Cavani remata o seu artigo jornalístico com estas palavras: «Pergunto-me se não seria conveniente uma ampla contribuição da opinião pública antes de definir uma declaração tão fundamental para a Carta Constitucional da União Europeia».

Esta pergunta tornava-se ainda mais necessária em virtude do trabalho efectuado pela comissão actual, a qual não quer referências às raízes cristãs do Velho Continente.

Surgiram vozes a clamar pela verdade histórica e o respeito que se lhe deve e, portanto, o dever de a respeitar.

O ex-primeiro ministro polaco, Tadeusz Mazowiecki, clamou: «Aqui está em jogo o feito cristão».
Jacques Delors, já em Março de 2002, disse em Lille: «Não se discute a laicidade da UE, mas esperamos que a Igreja seja escutada no processo da reforma da Europa».

Infelizmente, esta esperança foi contra-riada e com factos:

– Em Dezembro de 2001, foi criado em Laeken, Bélgica, o grupo de trabalho, que se denominou Convenção. Foram convidadas personalidades da Europa, mas não foi convidado nenhum representante da Igreja Católica, acontecendo o mesmo a outras religiões cristãs e confissões;

– O Papa João Paulo II bem depressa comentou esse facto e com esta clareza, diante de 172 embaixadores junto da Santa Sé, disse: «Não sem certa pena, vi que, entre os membros que deveriam contribuir para a reflexão sobre a Convenção instituída durante a cimeira de Laeken, as comunidades de crentes não tinham sido mencionadas explicitamente».

E sublinhou: «A marginalização das religiões que contribuíram e continuam a contribuir para o humanismo de que a Europa está legitimamente orgulhosa, parece-me que são ao mesmo tempo uma injustiça e um erro de perspectiva».

Em 18 de Maio, o Papa foi preciso e actuante. Disse: «Os fundamentos da identidade da Europa estão construídos sobre o cristianismo».

O laicismo, que membros da Convenção professam, defendem e impõem sempre que têm essa oportunidade, venceu.

O Vaticano já protestou. E o presidente da Convenção de Cristãos para a Europa expressou-se com esta clareza e objectividade: «Ignorar, como faz o texto, a realidade da identidade europeia que tem como componente básica o cristianismo, constitui uma imposição ideológica e expressa a vontade política de que o laicismo excludente constitua a única categoria cultural e referencial possível, marginalizando assim o facto religioso».

O catedrático de História da Universidade de Milão, Giorgio Rumi, analisa o facto à luz da História e diz: «Sinto-me profundamente ofendido como cidadão europeu e como historiador». Mais: «Parece-me que entre Atenas, Roma e a Ilustração – as três citadas – há algo decisivo no meio. Não falo de pretensões confessionais, mas desse nome pelo qual gerações inteiras viveram e esperaram. Todavia é possível que citar Cristo cause tanto medo hoje?»

Este professor universitário afirma com a maior objectividade: «O factor cristão é o mais unificante da Europa».

O laicismo que triunfou nem se preocupou com a História nem com os séculos que a Igreja Católica viveu e ajudou a viver no Velho Continente, o qual não pode falar da sua História sem a presença e a actividade da Igreja Católica.




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