Fotografia:
746. Meu caro Zé:

1. Quando estudei pedagogia, aprendi que, na formação da personalidade, há dois factores determinantes: a hereditariedade e o meio. E qual deles o mais poderoso: aquela, comportando a herança genética (tal pai, tal filho) e este, aferindo os condicionamentos ambientais (diz-me com quem andas e dir-te-ei quem és)!

N/D
11 Jun 2003

Ora, conforme as correntes de pensamento dominantes à época, assim se foi, ao longo dos tempos, dando primazia, ora a uma, ora a outra das teorias, mas sempre se concluindo que no meio é que está a virtude. Como quem diz que somos um produto acabado do eclectismo entre hereditariedade e meio, obviamente, quando o acto educativo se rege por padrões de normalidade.
Todavia, o meio mereceu sempre especial atenção de pedagogos, psicologistas e sociólogos, a ponto de se querer confundir muitas vezes o homem com o meio e vice-versa. E de, até, Rousseau (Jean Jacques), com a sua teoria do bom selvagem, defender que a criança nasce boa e pura, sendo a sociedade que a estraga e corrompe.

Também a educação pelo recurso aos arquétipos, ou modelos teve nas correntes pedagógicas directivas os seus seguidores, fazendo apelo ao educando para que siga o exemplo dos mais velhos, dos maiores, dos que estão por cima! E, praticando a emulação como método seguro de aprendizagem, se apregoava, frequentemente, que o exemplo vem de cima!

2. Todavia, meu velho, como em pedagogia e em tudo na vida não há verdades absolutas, as voltas que a educação tem levado são em maior número e mais sinuosas que as do Marão (pela estrada velha), ou de qualquer carrossel! E se, modernamente, as pedagogias progressistas e não directivas pugnam pela educação em liberdade e responsabilidade, o certo é que vivemos um tempo de autêntica macacada, isto é, de desenfreada imitação e cópia de modelos!

É à força do audiovisual, penso, que se deve o retorno perigoso a esta forma de ser, estar e aprender. A esta arte dirigista e totalitária de educar! Então, as televisões, com o seu refinado cortejo de telelixo e onde, através de programas menores e sem conteúdo (tipo Big Brother), um populismo fácil e bacoco faz escola, são os responsáveis mais directos por este estado de coisas!

Quem, caro Zé, não tenta imitar os famosos dos futebóis, da cançoneta, da moda, dos Bigs Brothers? Quem não cede à tentação fácil, à sedução da fama, dinheiro, holofotes, poder, nem que seja por um dia, que tais televisões exibem, que tais televisões promovem?

Só que eles não passam de vedetas da calinada e da aridez intelectual! E mais: se vamos pelos exemplos que nos vêm de cima (mesmo sem ser os das televisões) estamos fritos! Tal qual os escândalos da pedofilia, de Felgueiras, da Moderna, da Amadora, de Isaltino, de Cruz Silva, etc., etc., etc., que são mesmo o cúmulo da pouca vergonha, da pobreza moral nacional!

Ora, meu velho, o exemplo que vem de cima, o exemplo dos maiores, só é possível em sociedades que têm a honestidade, a solidariedade, a generosidade, a fraternidade, a tolerância e a justiça como valores fundamentais de conduta individual e colectiva! E nunca em repúblicas de ídolos de pés de barro! As ditas repúblicas das bananas!

Venham daí esses ossos e até de hoje a oito!




Notícias relacionadas


Scroll Up