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O valor da imagem humana

Portugal é para mim um fenómeno europeu excêntrico. Mesmo aqui, neste extraordinário ocidente, onde a costa se quebra, o mar tenebroso escurece como promessa, atracção e perigo, esconde-se o génio da Europa, como a natureza de um pedaço de rocha na sua fractura.” (Reinhold Schneider)

N/D
10 Jun 2003

Há escassas semanas, visitou Portugal Jonhannes Rau, o Presidente da República Federal da Alemanha, e, no seu discurso, saudou Lisboa como a grande capital, que poderia ser entre a Europa e o Terceiro Mundo. Saudação mal entendida, que, numa tradução errada ou subentendia por deficiente, logo foi compreendida como “grande capital de Terceiro Mundo”.
A vaidade alfacinha, ferida nos seus pundonores, ao ver o efeito de uma deficiente tradução, logo irrompeu em protesto, motivo que levou o diplomata Presidente a pedir desculpa. Fosse como fosse, para o diálogo uma tal afirmação, ainda que análoga, enriquece o discurso. As palavras são portadoras de sentidos implícitos, denotativos ou conotativos…

Queiram os portugueses que se dissesse que éramos os melhores da Europa, com a capital mais bela do mundo, a cheirar a crisântemos e a “mijo”, outrora, a Lisboa?! “Mas o Presidente citara o escritor alemão, que ao tempo dos cravos de Abril, era director do Goethe Instituto, de quem, neste ano passa o centenário do seu nascimento.

Ler as suas obras e relatos do que viveu em Lisboa, nos conturbados tempos do antes, durante e após o 25 de Abril, deveria fazer corar de vergonha todos os Portugueses… Só que a maior parte dos seus textos, estão escritos em alemão, língua inacessível à maior parte dos portugueses. O que conta de certa tacanhez e do complexo de inferioridade dos políticos de então, era para nos cobrirmos de saco… O presidente, como a fina flor intelectual alemã, teve acesso aos seus textos.

Mais grave, porém, é constatar que a mesma pelintrice engravatada é a que campeia nos tempos que correm. A prová-lo bastaria olhar para os “bonecos” de promoção turística da região de Braga, o código da nossa auto-flagelação…

Muitas vezes escrevo que, se os portugueses, em vez de falarem tanto estudassem e reflectissem mais, se, em vez de “gatódromo”, barulho e álcool, os estudantes se entregassem mais aos livros, com mais silêncio, aprofundamento e meditação, não teríamos o País que temos, o qual se sente num complexo de sado-masoquismo e de auto-consolo, ao ver também os países ricos em crise. Mas a crise destes é de luxo, a nossa é de miséria, analfabetismo e de narcisismo saloio e de mendicantes…

Não deveriam ter vergonha os políticos, tantos anos após a revolução dos cravos, com tantas universidades? Também agora o culpado é o salazarismo? Quem conhece a nossa emigração e o que exportámos, sabe muito bem avaliar tudo isso. Não pensem que os estrangeiros, que nos acolhem ou nos visitam, têm os olhos tapados. E que fazem as instituições portuguesas – professores, altos funcionários dos consulados e embaixadas, conselheiros culturais e Sociais por eles? Nada… ou muito pouco.

A sua presença não se justifica só por uns rudimentos de língua portuguesa e por um acto consular de passaporte, registo de casamento ou de um filho, se nunca se juntam com eles, a não ser por convite, por vezes mal recebido. Não gostam de se juntar com eles… têm medo deles, de se confrontar, talvez porque são pobres trabalhadores… que hoje não prestam nem para enviar divisas…

Não estranhemos ser caricaturados, nem tentemos vender gato por lebre. Mas que nos caricaturemos é muito grave!…




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