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E se não fosse verdade?

Poderemos nós confiar na informação que os media nos trazem diariamente? Quais seriam as consequências, do ponto de vista psicológico e da vida pública, se de repente se levantassem dúvidas sobre a veracidade ou a fiabilidade do nosso jornalismo? E se aquilo que vemos, ouvimos e lemos não fosse verdade?

N/D
9 Jun 2003

Aparentemente não temos razões especiais para supor que haja, entre nós, a este nível, problemas graves. Mas quando recentemente se descobriu que pelo menos duas crónicas de Clara Pinto Correia na Visão haviam sido em boa parte plagiadas, houve como que um baque colectivo, entre aqueles que acompanham mais de perto o jornalismo que se faz em Portugal. Embora aquela figura pública há muito não exerça como jornalista, para muitos leitores isso acaba por ser coisa de somenos. É o jornalismo.
Vem isto a propósito do autêntico “toque a rebate” que nas últimas semanas soou nos Estados Unidos, precisamente naquele que é tido como o principal jornal de referência do país e do estrangeiro e um dos principais marcadores da opinião e da agenda públicas – The New York Times.

Um seu repórter foi recentemente despedido por, ao longo de quatro anos, ter forjado e plagiado centenas de reportagens e de simples notícias, muitas delas respeitantes a assuntos de grande repercussão no país e fora dele. O jornal publicou quatro longas páginas com o inventário das aldrabices que tinha andado a servir aos seus leitores.

Poucos dias depois, descobria-se que um outro jornalista do mesmo diário, já contemplado com os célebres prémios Pulitzer, assinava reportagens sem referir que muito do material que utilizava era investigado e escrito por um seu colaborador privado.

As ondas de choque que estes casos originaram – bem visíveis nas centenas de reflexões e de análises que no último mês vieram a lume – culminaram, na semana passada, com a demissão dos responsáveis editoriais do The New York Times, facto inédito na já longa história daquele jornal.

A questão-chave que se discute é a de saber como foi possível que práticas tão detestáveis e contrárias à essência do jornalismo tenham podido verificar-se durante tanto tempo, sem que os mecanismos de autocontrole interno tenham funcionado de forma eficiente.

Não é a possibilidade de cometer erros que está em causa. Isso pode sempre acontecer, para mais lidando-se com matéria tão fugidia como é a informação de actualidade. O que é preocupante é a quase institucionalização das práticas de falsificação.

Como agir para combater e prevenir o risco? Esse será o assunto da próxima semana.




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