Fotografia:
Sophia de Mello Breyner Andresen

O maior escritor português vivo chama-se Sophia de Mello Breyner Andresen. O Prémio Nobel da Literatura devia-lhe, por isso, ter sido atribuído se se julgar que as distinções (e, já agora, este tipo de comentários) servem para alguma coisa.

N/D
8 Jun 2003

Provavelmente – ou certamente – não servem, mas não são de desdenhar quando, para além de tudo o que se sabe, expressam um justo reconhecimento e constituem uma chamada de atenção que permite alargar o círculo de leitores de uma obra. Quando são, sobretudo, um muito obrigado bem intencionado, as distinções têm um carácter simpático.
Em Livro Sexto (Lisboa: Moraes, 1972. 4ª edição), uma das mais emblemáticas obras da literatura portuguesa, Sophia inclui um posfácio que ilumina a sua arte poética. O texto reproduz as palavras ditas por ocasião da entrega do Grande Prémio de Poesia a Livro Sexto em 11 de Julho de 1964.

Sem tirar nem pôr, podem novamente ser usadas, quase quarenta anos depois, no momento da entrega do Prémio Rainha Sofia de poesia ibero-americana, atribuído na semana que acaba de findar pelo Património Nacional de Espanha e pela Universidade de Salamanca.

A justiça é um tema forte da poesia de Sophia, uma justiça reclamada para o mundo e para o poema que o nomeia e institui. “Quem procura uma relação justa com a pedra, com a árvore, com o rio, é necessariamente levado, pelo espírito de verdade que o anima, a procurar uma relação justa com o homem. Aquele que vê o espantoso esplendor do mundo é logicamente levado a ver o espantoso sofrimento do mundo. Aquele que vê o fenómeno quer ver todo o fenómeno. É apenas uma questão de atenção, de sequência e de rigor”, afirma Sophia. “E é por isso que a poesia é uma moral”, acrescenta. “E é por isso que o poeta é levado a buscar a justiça pela própria natureza da sua poesia. E a busca da justiça é desde sempre uma coordenada fundamental de toda a obra poética”. Sophia recorda que “no teatro grego o tema da justiça é a própria respiração das palavras”.

Ora celebração do esplendor do mundo, ora denúncia do sofrimento do mundo, esta poesia, que nunca cedeu ao palavroso e sempre soube afastar para o mais distante possível todos os estigmas retóricos, mostra que “o facto de sermos feitos de louvor e protesto testemunha a unidade da nossa consciência”. Este duplo gesto de celebração e de denúncia pode ser ilustrado por duas personagens de Contos Exemplares (Porto: Figueirinhas, 1983. 13ª edição), o Búzio e a Mónica.

Desconsiderado por todos, o Búzio é, de certo modo e se assim se pode dizer, a poesia em acção. Quando, em frente ao mar, começou a falar, as suas palavras eram “moduladas como um canto”, “quase visíveis que ocupavam os espaços do ar com a sua forma, a sua densidade e o seu peso”. “Palavras que chamavam pelas coisas, que eram o nome das coisas”. As palavras “brilhantes”, “grandes e desertas” desse velho homem – tal como as palavras de Sophia – “reuniam os restos dispersos da alegria da terra. Ele os invocava, os mostrava, os nomeava: vento, frescura das águas, oiro do sol, silêncio e brilho das estrelas”.

Bem sucedida, Mónica é uma espécie de Lili Caneças, mas numa versão sofisticada e culta. “É uma pessoa tão extraordinária que consegue simultaneamente: ser boa mãe de família, ser chiquíssima, ser dirigente da ‘Liga Internacional da Mulheres Inúteis’, ajudar o marido nos negócios, fazer ginástica todas as manhãs, ser pontual, ter imensos amigos, dar muitos jantares, ir a muitos jantares, não fumar, não envelhecer, gostar de toda a gente, gostar dela, dizer bem de toda a gente, toda a gente dizer bem dela, coleccionar colheres do séc. XVII, jogar golfe, deitar-se tarde, levantar-se cedo, comer iogurte, fazer ioga, gostar de pintura abstracta, ser sócia de todas as sociedades musicais, estar sempre divertida, ser um belo exemplo de virtudes, ter muito sucesso e ser muito séria”. Enfim, ainda hoje, um modelo.

“Tenho conhecido na vida muitas pessoas parecidas com a Mónica. Mas são só a sua caricatura. Esquecem-se sempre ou do ioga ou da pintura abstracta”. Quarenta e um anos depois de ter sido este retrato, as pessoas parecidas com Mónica já se lembram do ioga e da pintura abstracta. Esquecem-se apenas de serem pontuais.

Uma das coisas a que Mónica teve de renunciar foi à poesia. E em definitivo. Porque a “poesia é oferecida a cada pessoa só uma vez e o efeito da negação é irreversível”. Mas Mónica teve de renunciar também ao amor e à santidade. “O amor é oferecido raramente e aquele que o nega algumas vezes depois não o encontra mais. Mas a santidade é oferecida a cada pessoa de novo cada dia, e por isso aqueles que renunciam à santidade são obrigados a repetir a negação todos os dias”. Quem conhece o resto da história, lembra-se, por certo, que a santidade é o nome que Sophia de Mello Breyner Andresen usa para também designar a procura de justiça.




Notícias relacionadas


Scroll Up