Fotografia:
A segunda volta do Evangelho

Em muitas terras de missão por onde tenho andado me tem surgido invariavelmente a pergunta: como seria, há quinhentos anos atrás, a chegada dos missionários sem nada saberem da terra, da cultura, da língua ou da religião, com uma comunicação quase primária com as populações? E como terá sido pronunciado o nome de Jesus Cristo?

N/D
8 Jun 2003

Tudo novo, surpreendente, inacessível. Nem uma cruz, uma igreja, um traje, uma palavra em comum. Nem um conhecido, iniciado, nem um terreno visível para lançamento de sementeira. Vejo as tribos dos massai, Kikuyos ou os kikongos em África; ou os macuxi ou yanomami no Brasil ou Venezuela; os Asiáticos das Índias, de Cantão, Xangai, Malásia ou Nagasaki. Todos num arremesso de gestos imperceptíveis. De comum aos que chegavam e recebiam, talvez apenas o espanto.
Vale também a pena perguntar pelos que, muito antes, vieram de Jerusalém ou Roma e sentiram a mesma surpresa ao entrarem nas nossas terras. Houve missionários que vieram até nós, muito antes de nós partirmos em direcção a outros desconhecidos. O Evangelho foi assim levado em palavra, testemunho e celebração, de desconhecido em desconhecido, até que se fez comunidade, doutrina, fé, cultura, civilização, componente integrante não de um povo apenas, mas de muitos povos que, na pessoa de Jesus, encontraram elo comum de vida e de morte, de esperança e luta, de sofrimento e ressurreição. Houve e há um cortejo de heróis, santos e sábios, silenciosos e anónimos na sua grande maioria.

Hoje, estamos numa espécie de segunda volta do Evangelho. Quando se fala em nova evangelização ou em “reevangelizar” a Europa estamos perante um audaz desafio de quem parte, fazendo a travessia entre uma igreja e uma avenida, uma comunidade que vive e celebra a fé cristã intensamente e quem, no outro lado da rua, nem a combate ou discute. Apenas a ignora e afirma que nunca lhe sentiu a falta e até passa muito bem sem Deus.

Talvez não seja bem assim. Talvez o laico e o religioso apenas se desconheçam ou evitem. Talvez estejam separados apenas pelo fio dum cúmplice mutismo. E por isso o desafio da nova evangelização consiste mais num abraço que numa condenação, numa escuta que numa declaração de guerra, num sopro de cinzas sobre aquilo que os tempos e os sobressaltos da história diluíram do rosto de Jesus.

A iniciativa de quatro cidades europeias para a missão nos tempos de hoje reveste-se de múltiplas formas de anúncio da fé cristã. Nem inibe o sonho de partir para longe nem encerra numa única fórmula o anúncio de Jesus Cristo no meio de nós. Mas constitui uma nova coragem de, em todos os tons, dizer Deus ao nosso tempo.




Notícias relacionadas


Scroll Up