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Com carros tão feios, o que é que esperam?

1- Quebra nas vendas.Desanimados, os vendedores de automóveis novos constatam que, de ano para ano, se vem verificando uma diminuição nas vendas de quase todas as categorias e marcas de veículos. Claro que a crise explicará parte do problema, mas não todo ele. É que, nos segmentos mais caros, essa crise nem sequer parece ser tão acentuada.

N/D
7 Jun 2003

Penso eu que uma componente do problema será o facto de a estética dos carros estar a degradar-se de ano para ano.

2 – Estética “futurista” do oblíquo e do bojudo.
É desde 1993 que, ao poucos, as formas dos automóveis vêm gradualmente abandonando as sábias e bem doseadas combinações de linhas rectas (ou masculinas) com linhas curvas (femininas). Passaram a privilegiar desenhos que pouco ou nada dizem ao eterno gosto clássico. Ultimamente introduziram até, muitas vezes, desenhos de faróis e grelhas perfeitamente anti-estéticos, próprios de filmes de ficção científica, adequados talvez a um público com o gosto infantilizado.

3 – Mais ao gosto das Senhoras?
Quando, já há muito tempo, manifestei a um conhecido meu que trabalha no ramo, as minhas perplexidades de ordem estética sobre todo este assunto, ele “explicou-me”, todo convencido, que a evolução que eu tanto reprovava tinha a intenção de conquistar o mercado feminino. Porque havia cada vez mais mulheres ao volante e elas apreciariam mais este género de “atentados à estética”, que eu tanto abominava.

Apesar de a explicação fazer algum sentido são as variações metálicas das tão mutáveis morfologias fálicas; que outros ainda, têm faróis que parecem inspirados no aspecto circular dos mesmos órgãos geradores da vida; e que os faróis de outros parecem unhas pintadas de senhoras; e há até um ou outro que lembram mais uma brincadeira à volta de um carro (um “monta-cargas”, um carro incompleto) do que um verdadeiro carro.

4 – Os “gostos não se discutem”, mesmo?
Espertalhões foram aqueles estetas de 3.ª categoria que impingiram outrora ao adagiário nacional português a ideia de que os gostos nunca se devem discutir. Eu por mim penso que é totalmente ao contrário. Os gostos devem discutir-se! E mais, o gosto das pessoas deve ser educado. Educado à maneira das escolas clássicas e do vasto património artístico legado por séculos de extraordinários artistas, por esse mundo fora.

O que os tais espertalhões querem sempre, é uma de três: ou passar eles próprios por grandes artistas (Chagall, Picasso, Cutileiro, Shonberg, Alban Berg); ou enriquecer vendendo gato por lebre; ou pior ainda, degradar e corromper a Estética do povo, confundindo-o, amesquinhando-o, aniquilando-o intelectualmente para assim melhor o dominaram e conduzirem.

5 – Se o carro é feio, troca-se mais vezes o carro?
Aqueles industriais e financeiros que há mais de 10 anos terão determinado aquilo que a meu ver tem sido a degradação da estética dos carros, a sua feminilização, a sua infantilização, devem ter partido do princípio de que deste modo os donos dos carros trocariam mais vezes de carro. Porque não teriam apego a uma coisa feia, beneficiando assim os lucros da indústria. Porém, este raciocínio só colheria se os donos dos carros, ao trocar, obtivessem um outro carro esteticamente mais bem conseguido. O que não é, de todo, o caso, pois de ano para ano, as linhas vão ficando cada vez mais malucas. Por isso, o “golpe” não resultou, porque não poderia resultar.

E ainda assim vão-se vendendo carros em quantidades acima das expectativas que seriam razoavelmente de admitir… O sucesso relativo obsessões aerodinâmicas dos “designs” daqueles criadores que parecem ter uma sensualidade desviante (ou traumas psicológicos de infância) são um “mistério” que mereceria ser devidamente analisado. Sucesso que é sem dúvida um retrato do nosso “tempo tenebroso”…

6 – Uma cabala da indústria financeira sobre a indústria automóvel?
Ora esta evolução negativa da estética automóvel conduz lentamente à estagnação e à ruína da indústria do ramo. E quem poderia ter proventos, decerto sujos, com essa ruína? Decerto aqueles que vierem a comprar, barato, as fábricas e equipamentos das empresas de fabrico automóvel, então falidas. E falo aqui de alguns especuladores financeiros de alto gabarito, de alguns bancos e até de empresas concorrentes eles pertencentes, recém-formadas e por isso ainda não descapitalizadas…
Como dizia o outro, “em política, o que parece é” (falava ele, é claro, da substância, “do miolo, do recheio” da política; não da pequena parte visível da política, que é como os “icebergues” e em que normalmente “o que parece, não é”…).

Em Economia, a montante de tudo o resto estão os vulturinos bancos, cujos investimentos, empréstimos ou subsídios são o “oxigénio que mantém acesas as fornalhas das fábricas”. Se este for retirado, a indústria pode morrer ou a fábrica fechar.

Já politicamente, uma forma de países como os EUA (p. exemplo) atacarem países como a Alemanha, a França ou o Japão, seus óbvios rivais, poderá ser atacar os até hoje pujantes sectores de fabrico automóvel desses 3 países. Faz sentido. A economia Política e as Finanças sempre foram assim: o reino das manobras ocultas e do calculismo impiedoso. Observe-se a propósito que a única forma que a indústria automóvel americana tem tido de concorrer com a europeia ou japonesa (mais forte que ela) tem sido a de comprar marcas europeias e japonesas (ou de se associar a elas). Recorde-se o exemplo da General Motors, da Chryslter ou da própria Ford. E se fazem isto, é porque podem.

Porque nos EUA a Indústria Financeira e os bancos (a par dos sectores dos computadores, das armas, dos “media” e da droga) são realmente os campos mais fortes e agressivos da sua Economia. E infelizmente, também da sua política…




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