Fotografia:
Analfabetismo: a nossa vergonha

Para quem já teve 40, 50, 60 por cento de analfabetos no século XX, ter no início deste século, apenas 9 por cento, não parece ser muito grave. Vistas as coisas somente na base dos números, as coisas podem não ser muito graves. Mas o problema é o que significam estes 9 por cento no nosso mundo de hoje e também o seu significado no desenvolvimento geral do país.

N/D
7 Jun 2003

De facto, a iletracia, o analfabetismo são ainda a vergonha de todos nós. E quando outros sintomas de desenvolvimento nos colocam na cauda da Europa, então a vergonha é maior.
Segundo o Instituto Nacional de Estatística, na década de 81-91 a taxa de analfabetismo desceu 11 pontos percentuais. De 91 a 2001 desceu apenas para 9 por cento. Como se vê neste sector os progressos não foram muitos, apesar do esforço que foi feito na educação em Portugal, pondo a escolaridade obrigatória, e obrigatória até ao nono ano.

Fernando Casimiro adianta que este fenómeno pode ser devido à questão da longevidade sobretudo nas mulheres, pois a esperança de vida vai para os oitenta anos e é entre as mulheres que a taxa de analfabetismo é maior.

Esta situação piora no Sul do país (no Alentejo quase 16% e na Madeira quase 13%). Constata-se também que é no segmento feminino que o analfabetismo é maior e também a maior taxa incide no Alentejo e na Madeira e ainda na zona centro (11,5%). Mais ainda: pouco mais de um terço conclui o primeiro ciclo do ensino básico e 18,8% terminou o segundo e terceiro ciclos. Em 2001 apenas 15 em cada cem portugueses tinham o ensino secundário completo. Em 2001 tinham o ensino superior 8,6% e em todas as regiões do país. Em 1991 eram apenas 4%. Outro dado sintomático também é este: treze em cada cem portugueses fez um Curso na área do Comércio e Administração, 12,8% fez na Saúde, 12,1% escolheu a área da Educação e 12% optou por Letras e Ciências Religiosas.

Entretanto, há muita gente que continua a afirmar: estudar para quê? Para ficar no desemprego? Por outro lado, há por aí tanta gente analfabeta ou quase, que singraram na vida e têm fortunas! De facto, também estes aspectos têm o seu quê de verdade!

Por outro lado também, a civilização actual, com o culto do material, do supérfluo e do imediato, não aponta para a cultura, para o desenvolvimento da personalidade e para o gosto de tudo aquilo que eleva a pessoa humana. Tudo isto exige aturada instrução e preocupação pela educação das novas gerações o consumo a que fomos habituados desde pequeninos não apontam para a profundidade da nossa existência. E cada vez mais, os meios de comunicação social e o marketing nos encadeiam os olhos com as miragens do ter, do possuir, do consumir, da competitividade, do mais e do melhor. Aliás, o Governo actual continua a metralhar-nos as mentes com a exigência de maior produção, pois só produzindo é que poderemos competir com as forças exteriores a nós.

De facto a óptica fundamental não é a educação mas a produção. Aliás, enquadra-se bem no sistema neoliberal que invadiu o nosso século XXI.

Numa perspectiva global da pessoa humana em que a educação se torna fundamental para o desenvolvimento harmonioso e equilibrado da criança e do jovem, esta óptica consumista e unilateralmente materialista, vem dar ao ensino o avesso daquilo que devia ser. E os nossos governantes continuam a deixar-se ir nesta onda suicida. O que é lamentável e trágico em termos já de presente, e muito mais ainda, de futuro. As gerações futuras apanharão todas pela medida grossa.

E nesta perspectiva de educação, cada vez mais, as famílias, hoje em dia, são chamadas a dar o seu contributo. A escola não instrui só, também educa. E neste campo a opinião e o contributo dos pais é indispensável e radical. A menos que os pais se dimitam da sua tarefa essencial de educadores, a família ainda é, na civilização ocidental, a primeira responsável pela educação de seus filhos. Tarefa que nunca deve rejeitar nem descarregar pura e simplesmente na escola ou no Estado. Seria uma alienação abominável.

A escola se tem a missão de ensinar novos saberes aos seu alunos, estes saberes não podem ser desenquadrados duma perspectiva global de desenvolvimento individual e colectivo. As crianças e os jovens têm direito a crescer, despertando em si todas as suas potencialidades e capacidades e têm direito a sentir-se bem na sociedade, tornando-se úteis e realizados, gerando com o seu esforço e compromisso, uma sociedade melhor.




Notícias relacionadas


Scroll Up