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O narcismo do parecer

Sempre fomos um povo de grande paleio e de analistas. Muito prontos a analisar os outros, mas sem capacidade de nos vermos e diagnosticarmos a nós próprios. Inventamos um mundo quimérico que não corresponde, e só quando surgem as dificuldades, é que nos apercebemos da hecatombe.

N/D
6 Jun 2003

Fáceis em ver e julgar os outros, somos críticos e, alimentando um auto-narcisismo egocêntrico, pensamos que somos os melhores e não somos capazes de ver os nossos defeitos como não aceitamos os que no-los descobrem. Vivemos um sonambulismo quimérico e, como narcotizados, numa pasmaceira de abúlicos somos amantes de passivo e necrofilia.
Virtudes e defeitos fazem parte da condição humana. No entanto, é preciso ser lúcido para nos vermos, descobrirmos e não cairmos numa estultícia de avestruz, que nos cega a nós mesmos com o próprio encantamento. Os homens mais cultos são normalmente os mais lúcidos dentre os homens, e nem por isso menos humildes. A humildade é a verdade. Mas quem é humilde hoje?!…

Por isso inventamos as técnicas do Leôncio, que mostra mais do que tem e se apoia mais no mostra do que no que é. Mais importante do que ter ou parecer é o ser, mas para isso é necessário haver uma formação humana sadia, equilibrada, cristocêntrica, a qual nos leva a construir a vida noutros moldes, por vezes diferentes dos valores e do que vemos…

Cada vez mais o importante é o micro-cosmos, o invisível e não o que se impõe, às vezes numa linguagem de comunicação social absorvente sensacionalista, que até nos tira a capacidade da reflexão e do juízo. Mais somos consumidores autómatos do que artesãos ou agentes do processo.

Enquanto a nossa escola não levar a isso, a criar climas de silêncio, reflexão e mesmo contemplação, podemos ter “armazéns” de alunos, mas nunca teremos as elites necessárias para ajudar a transformação de um país, que precisa de muitos recursos humanos, intelectuais e estruturais.

Foi assim que se fez a reconstrução de grandes economias e riquezas. Foi assim que se fizeram as grandes obras, que constituem património da Humanidade. Foi assim que o Cristianismo ajudou a enriquecer esta Europa, o velho continente, com a qualidade de vida e paisagens mais belas do mundo, a estender-se pelos países mais pobres. Porque nos ensinou a investir no tempo com um preço de eternidade. Mas isto não foi feito sem muito trabalho, luta, silêncio, reflexão, crises, tempo maduro e aturado, esforço beneditino…

No nosso tempo, tudo se faz rápido, irreflectido. Por isso todos caem com o seu processo, ou após as modas, ideologias, que os erigiram.

Não serão assim muito dos nossos monumentos e obras, mesmo que se digam literárias ou “latrinárias” – expressões caducas e efémeras -, que falam pela sua falácia, impertinência e atrevimento, ainda que impostos à violência, ou a revelia dos seus autores? Por isso muitas morrem por si ou na autofagia que as empoleirou, ou como a aranha que as consumiu…

Portugal tem abusado neste sentido. Em nome de turismo “brejeiro”, literatura e uma imprensa macrocéfala atinge os grandes meios, onde proliferam chusmas de jornais, mutilou-se a imprensa regional.

Em nome de construções faraónicas de estádios, escasseiam os recursos mínimos para a subsistência das populações como para cantinas nas escolas. Mesmo esta será função dos autarcas, ou de outras entidades? Mas vai ao pretor que tem de se ocupar das coisas mínimas… Não

saberemos distinguir as instâncias? Não haverá outras formas de colmatar as necessidades dos mais carentes? Jardins de infância para meios, cujas mães não trabalham, ou estão no desemprego, será o melhor processo de educação tirá-las do contacto materno?

Copiar políticas macrocéfalas de supermercado, desenraizadoras do meio e escolas com ambições citadinas, será o melhor processo de preparar os futuros agentes para a sua transformação?

Assim eu tenho visto muito do organigrama e ethos cultural e social, que nos levará a moldes insuspeitados.

Como os pés são de barro, acabarão por ruir por si mesmo sem deixar rastro atrás de si. Não serão assim até muitos dos políticos e homens ilustres que veneramos, nos impingem, ou apresentam de modelos?!




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